Chamar a população preta brasileira de resiliente tornou-se quase um elogio constrangedor — uma palavra que descreve sobrevivência heroica e, ao mesmo tempo, desobriga o Estado de cuidar.
A palavra resiliência virou moeda corrente. Aparece em palestras corporativas, em campanhas de autoajuda e, com frequência embaraçosa, em matérias sobre saúde mental da população negra. Povo resiliente, comunidade resiliente, corpo resiliente. É preciso desconfiar de qualquer elogio que serve, na prática, para justificar o abandono. A resiliência do preto, no Brasil, costuma ser medida pela quantidade de porrada que ele aguenta antes de cair.
O que a psicologia chama de resiliência
Na literatura clínica, resiliência descreve a capacidade de um sistema — psíquico, familiar, comunitário — de absorver choques e se reorganizar sem colapsar. É um conceito útil, desde que não vire moral. O problema começa quando resiliência deixa de ser descrição de processo e vira virtude exigida. Aí, implicitamente, quem adoece passou a ser visto como quem falhou em ser resiliente — e a estrutura que produziu o adoecimento sai de cena.
Neusa Santos Souza mostrava, já em 1983, que o sujeito negro precisava construir um eu sob condições adversas, negociando entre o espelho branco e a história silenciada. Essa construção tem nome clínico. Tem tempo. Tem custo. Chamar isso simplesmente de força interior é achatar o fenômeno e desculpar a sociedade que o exige.
Contra a resiliência como álibi
Existe um uso contemporâneo da palavra que merece ser desmontado. É aquele que transforma a sobrevivência coletiva de pretos e pretas em prova de que a situação não é tão grave — afinal, olha como eles aguentam. É o mesmo raciocínio que descreve uma criança da periferia como madura para a idade e esquece de perguntar por que ela precisou amadurecer antes da hora. A resiliência vira álibi.
Lélia Gonzalez tinha um ouvido fino para esse tipo de elogio enviesado. A figura da mulher preta guerreira, da comunidade que se vira, do povo que faz do limão uma limonada — tudo isso é, ao mesmo tempo, verdade vivida e armadilha política. Dá orgulho e dá cansaço. A clínica que só celebra a parte do orgulho é cúmplice do cansaço.
Uma ideia mais honesta de força
Dá para recuperar a palavra sem o ranço. Resiliência, entendida seriamente, não é impermeabilidade — é elasticidade com tempo de recuperação. Ou seja: inclui o direito de quebrar, de parar, de pedir ajuda, de não dar conta. Um sistema que não se permite pausa não é resiliente; é rígido, e rígido quebra de vez. Isildinha Nogueira diria que o corpo preto precisa reaprender a ter direito ao relaxamento, porque a musculatura do medo é treinada desde cedo.
Construir força interior, nesse sentido, não é acumular estoque para aguentar mais. É diminuir, onde possível, o tanto que se pede do sistema. É rede. É terapia. É negar, às vezes, o convite para representar a comunidade inteira numa reunião. É descobrir que dizer não também é uma técnica de sobrevivência — mais sofisticada, aliás, do que engolir em silêncio.
O que fazer com isso
Três movimentos recuperam a ideia sem transformá-la em propaganda:
- Separar resiliência de resistência compulsória — ninguém precisa provar força todo dia.
- Incluir descanso, luto e desistência tática no repertório de força.
- Nomear o que é coletivo: rede preta protege mais do que disciplina individual.
A força interior que importa não é a que aguenta calada. É a que reconhece o próprio limite antes de quebrar e busca, sem pudor, o que for preciso para se refazer. A pessoa preta tem direito de cair e tem direito de ser cuidada. Isso também é resiliência — talvez a única que valha o nome. Frantz Fanon já avisava que ninguém se cura sozinho num mundo que continua produzindo, todos os dias, novas feridas. Curar, no plural, exige interrupção, exige companhia, exige infraestrutura afetiva e material. Enquanto insistirmos em medir a saúde mental preta pela quantidade de dor suportada, estaremos confundindo sobrevivência com bem-estar — e perdendo, de novo, a chance de falar sério sobre cuidado. Talvez a palavra resiliência, depois de tanto uso torto, precise de férias. O que a população preta reivindica, no fundo, não é força para aguentar mais. É o direito de não precisar aguentar tanto.