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Semana 42 · 2024

Transtornos de sono e racismo estrutural

ENSAIO 18 de outubro de 2024 · Saúde Mental
Capa: Transtornos de sono e racismo estrutural

Dormir mal não é falta de higiene do sono. Para muita gente preta no Brasil, é o sistema nervoso recusando baixar a guarda numa cidade que nunca dormiu em paz com a gente.

O manual ensina: evite cafeína após as 16h, mantenha o quarto escuro, não use tela antes de dormir. Conselho de classe média branca do Primeiro Mundo. Na quebrada, o problema não é a tela — é o barulho da viatura, a preocupação com o filho que ainda não chegou, o corpo que aprendeu, desde a infância, que relaxar completamente é arriscado. Os estudos de Geronimus sobre weathering mostram que um dos marcadores biológicos mais consistentes do racismo crônico é justamente a desregulação do eixo do cortisol — e o sono é a primeira vítima.

Hipervigilância não desliga

Monica Williams, pesquisadora estadunidense sobre trauma racial, descreve o race-based traumatic stress como um estado em que o sistema de alerta permanece parcialmente ativado mesmo em contextos seguros. Traduzindo: o corpo preto aprende, por experiência acumulada, que "seguro" é provisório. À noite, quando os estímulos externos diminuem, a vigilância não baixa — ela se volta para dentro. Pensamentos ruminantes, microdespertares, sono fragmentado.

Pesquisas recentes em populações negras mostram maior prevalência de insônia, apneia e sono não-restaurador, mesmo controlando classe e IMC. A explicação biomédica tradicional recorre à genética. A explicação racialmente competente olha para a biografia: quantas décadas de abordagens policiais, de olhares no elevador, de ter que provar o tempo todo, ficam alojadas num sistema nervoso?

Contra o higienismo do sono

A indústria do bem-estar vende o sono como projeto individual. Colchão caro, app de meditação, blackout, chá. Para quem tem acesso, ajuda no contorno. Mas tratar insônia racial com técnica comportamental é como passar pomada em fratura. O sono ruim de um homem preto de 45 anos que mora em bairro com alta incidência de violência policial não vai melhorar com melatonina. Vai melhorar, talvez, quando ele deixar de ter motivos para dormir de olho aberto.

Isso não é desculpa para não tratar. É exigência de tratar melhor. A clínica do sono precisa incorporar racismo como variável de primeira ordem, não como curiosidade sociológica. E precisa aceitar que parte do que chamamos de "transtorno" é, na verdade, adaptação funcional a um contexto disfuncional.

O sono como território político

Dormir é render-se. Quem tem ensaiado a rendição, desde criança, como ato arriscado, desenvolve uma relação com a cama que a polissonografia não captura. Há uma dimensão quase filosófica aí: o sono profundo pressupõe confiança no ambiente. E confiança, para muita gente preta, é capital social escasso.

Nilma Lino Gomes fala da educação das relações étnico-raciais como processo de reconstrução subjetiva. Aplicado ao sono, isso sugere que descansar de verdade é também uma aprendizagem — coletiva, não só individual. Terreiro, casa de família, espaço preto seguro: ali o sono volta a ser possível. A clínica que entende isso trabalha com essas geografias, não contra elas.

O que ajuda de fato

Sem prometer cura rápida:

O direito ao sono profundo é uma das fronteiras menos discutidas da justiça racial. Enquanto metade da cidade dorme tranquila e a outra metade dorme de lado, escutando, a conversa sobre saúde mental vai continuar capenga. Começar pelo travesseiro é menos banal do que parece — é reconhecer que o descanso, para corpos historicamente expropriados, nunca foi direito consolidado. Recuperá-lo, noite a noite, é também um gesto de reparação. Pequeno, silencioso, íntimo. E, ainda assim, profundamente político.

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