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Semana 32 · 2024

Burnout em ativistas: quando a luta adoece

ENSAIO 9 de agosto de 2024 · Saúde Mental
Capa: Burnout em ativistas: quando a luta adoece

A militância preta tem produzido mais pacientes do que quadros — e a esquerda ainda trata isso como efeito colateral, não como problema estratégico.

Uma ativista que acompanho há dois anos me disse, depois de uma pausa longa na sessão: eu amo o movimento, mas o movimento não me ama de volta. Ela tinha acabado de receber diagnóstico de fibromialgia, aos trinta e quatro, depois de uma década militando em frente ampla antirracista. Não era caso isolado. O que chamamos de burnout militante virou epidemia silenciosa nos coletivos pretos brasileiros, e ninguém quer ser a pessoa que diz isso em voz alta na reunião.

A culpa como motor

Militância preta opera, muitas vezes, sob regime de dívida. Você está vivo porque gente antes de você morreu lutando — então recusar tarefa, faltar reunião, dormir oito horas, tirar férias, parece traição ancestral. Essa gramática, embora compreensível, produz corpos que se expõem muito além do sustentável. A luta vira penitência, e penitência crônica adoece.

Audre Lorde já tinha avisado que cuidar de si era ato político. Mas a militância contemporânea, especialmente a jovem, absorveu a parte do ativismo e esqueceu a parte do cuidado. O resultado é uma geração de quadros brilhantes aos vinte e cinco, exaustos aos trinta, afastados aos trinta e cinco, com histórico de depressão grave e relações desfeitas em nome de uma causa que, no fim, também os consumiu.

O dentro que reproduz o fora

Aqui mora uma questão incômoda: muitos coletivos pretos replicam, dentro, a mesma lógica produtivista que combatem fora. Reuniões de três horas, grupos de WhatsApp que não silenciam às duas da manhã, julgamento moral de quem não está 100% disponível, hierarquias informais brutais disfarçadas de horizontalidade. A pessoa sai do trabalho racista e entra no coletivo antirracista — e continua sendo consumida, só que agora em nome de uma linguagem mais bonita.

Isso não invalida o trabalho político. Invalida a pretensão de que militância, por si só, é espaço de cura. Não é. Militância pode ser espaço de sentido, de pertencimento, de reparação simbólica — e também pode ser, simultaneamente, espaço de adoecimento. Segurar essas duas verdades ao mesmo tempo é parte de crescer politicamente.

A figura da referência que não pode cair

Tem um personagem específico do burnout militante que merece atenção: a referência. Aquela pessoa que todo mundo cita, que escreve, que palestra, que acolhe as mais novas, que responde mensagem de desconhecido às onze da noite, que não pode cancelar porque dependem dela. Essa figura, quase sempre mulher preta, quase sempre entre trinta e cinquenta anos, está entre as mais adoecidas do campo.

E o campo lida mal quando ela cai. Acusam de elitismo, de abandono, de embranquecimento. Raramente se pergunta o que a levou ali — que estrutura de apoio ela tinha, que reposição de energia ela acessava, que direito ao desaparecimento temporário lhe foi garantido. A resposta honesta costuma ser: nenhum, nenhuma, nenhum.

Sustentabilidade como estratégia política

Burnout militante não é problema individual que se resolve com terapia — embora terapia ajude. É problema organizacional que exige mudança nas práticas coletivas. Três deslocamentos concretos que movimentos maduros têm experimentado:

A luta antirracista é longa demais para ser feita por corpos descartáveis. Cuidar dos quadros é tão estratégico quanto formar quadros — talvez mais, porque formar leva tempo e perder é rápido. A militância que não consegue sustentar seus próprios corpos está reproduzindo, com outras palavras, a lógica que promete combater.

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