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Semana 30 · 2024

Dissociação como mecanismo de sobrevivência

ENSAIO 26 de julho de 2024 · Saúde Mental
Capa: Dissociação como mecanismo de sobrevivência

Dissociar nao e fraqueza psiquica: para muita gente preta, foi a unica forma de atravessar a infancia sem quebrar por dentro.

Uma paciente me conta, quase de passagem, que nao lembra de quase nada entre os sete e os onze anos. Foi a fase em que a familia mudou para um bairro onde ela era a unica crianca preta da escola. O que o senso comum leria como memoria fraca, a clinica le como algo mais preciso: dissociacao. Um corte fino entre o que acontece e o que pode ser sentido. Nao e esquecimento aleatorio, e protecao.

O corte que protege

A literatura sobre trauma, de Bessel van der Kolk a Judith Herman, ha decadas descreve a dissociacao como resposta adaptativa quando fuga ou luta nao sao opcoes possiveis. O organismo desliga partes da experiencia para que a crianca continue indo para a escola, a mulher continue trabalhando, o adolescente continue entrando na sala de aula onde foi chamado de macaco semana passada. Dissociar, nesse sentido, e um ato inteligente do sistema nervoso.

Monica Williams, pesquisadora que estuda trauma racial nos Estados Unidos, insiste que microagressoes cronicas produzem sintomas dissociativos equivalentes aos de eventos traumaticos agudos. No Brasil, onde o racismo se veste de cordialidade e de piada, essa conta e ainda mais sorrateira. Nao ha um evento unico para nomear. Ha mil micro-cortes, e o corpo aprende a nao estar inteiro em nenhum deles.

A psiquiatria nao estava olhando

O manual diagnostico trata dissociacao como condicao isolada, quase sempre ligada a abuso sexual ou guerra. Traz uma lista de sintomas sem contexto: despersonalizacao, desrealizacao, amnesia. O que a clinica racializada percebe e que, para pessoas pretas, dissociar em espaco branco virou quase default. Aquela sensacao de se ver pela janela enquanto o chefe fala, de estar em uma reuniao e ao mesmo tempo longe, de chegar em casa sem lembrar do trajeto.

Chamar isso de transtorno descola a experiencia da sua causa. Neusa Santos Souza, em Tornar-se Negro, ja em 1983 descrevia o que ela nomeou como um ego fraturado produzido pelo ideal branco. Nao era metafora. Era descricao clinica. A pessoa preta que dissocia esta, em alguma medida, habitando duas salas ao mesmo tempo: a da sobrevivencia e a da presenca.

Quando a saida vira prisao

O problema nao e a dissociacao ter existido. E ela nao saber ir embora. O mecanismo que salvou a crianca comeca a atrapalhar a mulher adulta que quer intimidade, que quer sentir o sexo, que quer chorar no funeral do pai e descobre que nao consegue. O corpo aprendeu a sair. Nao sabe mais voltar inteiro.

Na clinica, a tarefa nao e eliminar o mecanismo, e negociar com ele. Isildinha Nogueira, escrevendo sobre o corpo negro, lembra que habitar a propria pele e um trabalho politico antes de ser terapeutico. Sem reconhecer o que o corpo atravessou, pedir que ele sinta agora e violencia redobrada. A pressa terapeutica, nesse terreno, costuma ser uma forma mal disfarcada de impaciencia branca com o tempo preto.

Ha pacientes que passam meses descrevendo a vida em terceira pessoa antes de conseguir dizer "eu". Nao e resistencia, e cautela bem calibrada. O sujeito dissociativo precisa checar se a sala comporta sua presenca inteira. Se comporta, ele volta aos poucos. Se nao comporta, ele faz bem em ficar no corredor.

O que fazer com isso

A escuta racializada comeca por nomear. Dissociacao em populacao negra nao e diagnostico solitario, e historia coletiva inscrita no sistema nervoso. Alguns movimentos importam mais que interpretacoes:

Ha uma geracao inteira de gente preta redescobrindo que nao era distraida, nao era fria, nao era insensivel. Era sobrevivente. Nomear o mecanismo e o primeiro ato de reconciliacao com um corpo que ficou a vida toda montando guarda. E, talvez, o comeco de uma clinica que nao pede que ninguem volte inteira antes de ter para onde voltar com seguranca, com escuta, com gente que entende sem precisar de tradutor.

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