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Semana 29 · 2024

Saúde mental materna em contextos de discriminação

ENSAIO 19 de julho de 2024 · Saúde Mental
Capa: Saúde mental materna em contextos de discriminação

Maternar sendo preta no Brasil nao e so cuidar de uma crianca: e vigiar o tempo todo os olhos brancos que ja decidem o destino do seu filho.

Uma amiga deu a luz ha tres meses. No retorno da maternidade, chorou contando que o pediatra olhou o bebe, um menino preto, e disse: "nossa, ja da pra ver que vai ser forte". Ela sorriu educadamente. Dentro dela, algo apertou. Aquele elogio era tambem uma sentenca. Aos tres meses, o filho dela ja tinha sido lido como ameaca em potencial. A maternidade preta comeca antes do parto e nao termina nunca.

Nao e depressao pos-parto comum

A literatura medica fala de baby blues, depressao pos-parto, psicose puerperal. Trata como desequilibrio hormonal com tempero psicossocial. Para maes pretas brasileiras, ha uma camada que esses diagnosticos quase nunca tocam: a hipervigilancia racial. O bebe chora, a mae ja calcula se o choro vai acordar o vizinho branco que olha feio. Sai na rua, ja calcula se a roupa do filho sinaliza classe suficiente para nao ser abordado.

Arline Geronimus, pesquisadora americana, cunhou em 1992 o termo weathering para descrever o desgaste biologico acelerado em mulheres negras por exposicao cronica ao racismo. A gestacao preta entra nesse ciclo com corpo ja machucado. Nao e frescura nem mimimi: e carga alostatica, cortisol alto, sono ruim, inflamacao sistemica. O puerperio pousa sobre um organismo que ja estava trabalhando no limite.

A culpa que a branquitude terceiriza

Ha um roteiro pronto que culpa maes pretas por tudo: pelo filho ser agitado, pelo filho ser quieto demais, pela amamentacao, pela nao amamentacao, pela escola publica, pela escola particular que "ela nao deveria estar bancando". A mae preta e auditada por vizinhos, por professores, por assistentes sociais, por conselhos tutelares. A mae branca, de classe media, e presumida como competente ate prova em contrario. A inversao e brutal.

Lelia Gonzalez ja havia dito que a mulher negra brasileira carrega o pais nas costas. No puerperio isso vira literal. Sem rede, sem licenca decente, sem escuta clinica que entenda o que a racializacao faz ao vinculo mae-bebe, o que resta e uma solidao com cheiro de leite e de medo. E uma solidao que nem sempre aparece como tristeza: aparece como irritacao, como esgotamento, como desconexao que a mae mesma nao sabe nomear porque nao tem lugar social para descansar dentro do proprio corpo.

Quando chega a consulta, ela ouve que precisa tirar um tempo para si. Como se tirar um tempo fosse decisao individual e nao privilegio de classe. Como se bastasse um banho quente para desarmar seculos de cobranca sobre o corpo que amamenta.

Vinculo sob vigilancia

Psicanalise classica fala em mae suficientemente boa, em funcao materna, em devaneio. Tudo isso foi pensado por gente branca observando bercarios brancos na Europa do pos-guerra. Quando a maternidade acontece sob vigilancia racial, o devaneio materno e interrompido o tempo todo. A mae nao tem espaco psiquico para sonhar o filho, porque esta ocupada anteciparando como o mundo vai ler esse filho.

Isso nao quebra o amor, mas tensiona o vinculo. Muitas maes pretas me contam de uma intensidade afetiva grudada em ansiedade, um querer proteger que e, ao mesmo tempo, delicioso e exaustivo. A clinica precisa entender que isso nao e apego inseguro. E apego consciente da guerra.

Cuidar de quem cuida

Saude mental materna preta exige politica publica, sim, mas tambem exige mudanca no consultorio. Alguns deslocamentos sao urgentes:

Nenhuma mae preta deveria precisar de manual para sobreviver ao proprio amor. Enquanto o pais nao entender que cuidar dela e cuidar de duas geracoes ao mesmo tempo, vamos seguir tratando sintoma e ignorando a ferida que sangra desde muito antes do parto.

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