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Semana 27 · 2024

Fobias sociais e identidade negra

ENSAIO 5 de julho de 2024 · Saúde Mental
Capa: Fobias sociais e identidade negra

Chamar de fobia social o medo preto de espacos brancos e erro diagnostico: nao e transtorno, e leitura precisa de um ambiente que sempre avisou ser hostil.

Um paciente me conta que trava antes de reunioes. Sua no elevador. Ensaia falas. Treina o tom certo. No CID-10, isso se chamaria fobia social. Mas ele e o unico preto da empresa, ja foi confundido duas vezes com o rapaz da manutencao e, em uma reuniao, teve sua ideia repetida por um colega branco e aplaudida como original. A pergunta que a clinica precisa fazer antes de diagnosticar e simples: de que exatamente ele tem medo?

O diagnostico que apaga o contexto

Transtorno de ansiedade social, segundo os manuais, envolve medo persistente e irracional de situacoes sociais. A palavra-chave e irracional. Quando uma pessoa preta entra em espaco branco e seu corpo dispara, ha pouca coisa de irracional. Ha leitura apurada de um ambiente que ja deu, repetidas vezes, sinais de que ali ela sera avaliada de forma mais dura, com menor margem de erro, e que qualquer desvio sera lido como confirmacao de estereotipo.

Frantz Fanon, em Pele Negra, Mascaras Brancas, descreveu ha setenta anos o peso do olhar branco sobre o corpo negro. Nao era metafora literaria. Era fenomenologia. O sujeito negro, escreveu ele, e olhado antes de ser visto. Esse olhar atravessa o corpo e produz uma esquizofrenia situacional: a pessoa esta ali e, ao mesmo tempo, ocupada em administrar como esta sendo percebida. Isso consome recurso psiquico gigante.

Hipervigilancia nao e covardia

Ha uma versao do discurso da autoestima que culpa a pessoa preta por "nao acreditar em si". Se arrumasse a cabeca, se amasse mais, se repetisse afirmacoes, falaria em publico sem tremer. Essa narrativa individualista converte em defeito de carater o que e, na verdade, adaptacao a um ambiente adverso. A hipervigilancia em espaco branco e um sistema de alarme calibrado em decadas de experiencia, propria e herdada.

Neusa Santos Souza, em 1983, ja havia nomeado isso como uma questao estrutural da subjetividade negra brasileira. Nao se tornar o estereotipo, para ela, exigia um trabalho psiquico permanente. Esse trabalho tem custo. Quem trabalha o tempo todo para nao ser lido como o estereotipo chega ao fim do dia exausto, e muitas vezes sem conseguir nomear por que.

Quando a leitura vira prisao

O problema nao e a hipervigilancia existir. E ela nao ter folga. O corpo que leu corretamente o ambiente hostil da reuniao as dez da manha nao consegue desligar o radar as oito da noite no churrasco com amigos, nem as onze na cama com o parceiro. Aquilo que salvou em um contexto comeca a vazar e contaminar todos os contextos. E ai sim ha sofrimento que merece ser chamado de sintoma.

Mas o caminho terapeutico nao pode ser desativar o radar. Tem que ser refinar o radar. Ensina-lo a distinguir o que e leitura de ambiente real do que e residuo de ambientes passados. Isildinha Nogueira fala de um trabalho de habitar o corpo preto sem pedir permissao. Esse habitar e tambem aprender a soltar a guarda quando ela nao e necessaria, sem abrir mao dela quando for.

Clinica que valida antes de tratar

A terapia da ansiedade social, tomada dos manuais americanos, costuma pedir exposicao progressiva ao estimulo temido. Em clinica racializada, isso tem que ser repensado:

A pergunta nao e como a pessoa preta se encaixa melhor em espaco que nao foi feito para ela. E como ela conserva a si mesma enquanto atravessa esses espacos, e onde, afinal, pode ser inteira sem ensaio.

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