Chamar gente preta de resiliente ja virou elogio envenenado: parabeniza a sobrevivencia enquanto exige mais sofrimento sem oferecer reparacao.
Tem um tipo de elogio que, ao cair sobre o corpo preto, soa como sentenca. "Voces sao fortes". "Voces aguentam tudo". "Que resiliencia incrivel". Dito por gente branca em palco de palestra corporativa, com a voz embargada, esse elogio pede, no fundo, que a forca continue. Que a conta nao mude. Que o pais siga funcionando a custas da elasticidade psiquica de quem nunca foi feito para aguentar o que aguenta.
A resiliencia virou curriculo
A psicologia positiva popularizou resiliencia como habilidade individual: capacidade de se recuperar de adversidades. Livros, TED talks, manuais de recursos humanos transformaram a palavra em selo de qualidade pessoal. Para populacoes negras, o conceito chega com ambiguidade brutal. Ao mesmo tempo em que reconhece uma verdade, a de que a negritude sobreviveu ao insobrevivavel, naturaliza o sofrimento como terreno onde a virtude desabrocha.
Lelia Gonzalez, quando falava da mulher negra que sustenta familia, trabalho e comunidade, nao estava propondo modelo a ser imitado. Estava apontando uma sobrecarga historica. Confundir descricao com ideal e um truque ideologico que a branquitude opera o tempo todo: transforma a cicatriz em troféu, e o troféu em justificativa para nao mudar a fabrica de feridas.
A forca sem reparacao adoece
Arline Geronimus mostrou, em decadas de pesquisa, que mulheres negras que ascendem socialmente tem marcadores biologicos de envelhecimento pior que suas pares brancas em situacao semelhante. O esforco extra para subir cobra corpo. A resiliencia, medida em rins, coracao, sistema imune, aparece como desgaste. Superar, em ambiente hostil, e pagar caro.
Na clinica, isso aparece em pacientes pretas bem-sucedidas que chegam com exaustao que nao afrouxa nem no fim de semana. Elas venceram tudo o que o discurso meritocratico mandou vencer. O sono nao volta. A ansiedade nao cede. O corpo avisa, com sintomas somaticos, que a celebracao da forca foi cobrada nos juros.
Existe uma forca que nao e sacrificio
Ha, no entanto, uma outra forca, que nao e a performatica. Esta nos terreiros que atravessaram seculos. Esta nas roda de samba que seguram luto coletivo. Esta nas avos pretas que contaram historia sem precisar chamar aquilo de terapia. Essa forca nao e individual, e comunitaria. Nao se constroi no consultorio caro, se herda no cotidiano, e o psicanalista lucido precisa reconhecer que chegou depois.
Grada Kilomba, ao falar de descolonizacao do conhecimento, lembra que os saberes negros sobre sofrimento e cura existem antes e fora das universidades. Trazer isso para a clinica nao e exotizar. E aceitar que a escuta branca, sozinha, e pobre demais para dar conta do que a pessoa preta traz.
Reformular a palavra
Resiliencia, para servir a saude mental preta, precisa ser reescrita. Nao como aguentar mais, e sim como:
- Saber recuar: parar de trabalhar, de cuidar, de resolver, antes do corpo avisar.
- Recusar performance: nao aceitar papel de exemplo, de porta-voz, de representatividade quando o custo e o proprio adoecimento.
- Construir descanso coletivo: alianca com outras pessoas pretas em espacos de afeto, silencio, desaceleracao.
Ser forte, para gente preta, so faz sentido se vier acompanhado do direito a ser fraco sem punicao. Enquanto isso nao for verdade, a palavra resiliencia vai continuar sendo, em muitos contextos, um elogio que cobra boleto.