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Semana 19 · 2024

Luto coletivo: processando a perda histórica

ENSAIO 10 de maio de 2024 · Saúde Mental
Capa: Luto coletivo: processando a perda histórica

Luto coletivo preto no Brasil nao comeca no velorio — comeca antes de nascer, numa heranca de perdas nao choradas que atravessa geracoes e mora no corpo como cansaco sem causa aparente.

Em novembro, varias midias publicam listas dos jovens pretos mortos pelo Estado no ano. Os numeros atualizam a cada edicao. Quase nao ha cobertura dos lutos de quem fica — maes, irmas, filhos, bairros inteiros que absorvem a perda e seguem pra fabrica, pra cozinha, pra escola, no dia seguinte. O luto vira paisagem. Paisagem que nao se chora vira peso estrutural do corpo coletivo.

Perdas que nao couberam em velorio

Ha uma camada de luto brasileiro preto que antecede qualquer morte recente. E o luto da travessia transatlantica, da familia desfeita no mercado de escravos, do nome africano apagado, da lingua materna proibida, do corpo separado do territorio. Nada disso foi ritualizado por quem perdeu — escravizado nao tinha direito a velorio seu, quanto mais dos seus. A dor ficou em suspenso. Em suspenso, dor se deposita.

Joy DeGruy, psicologa afro-americana, propos o conceito de sindrome do trauma pos-escravidao. Nao e diagnostico formal, mas e modelo util para pensar o que pesquisadoras brasileiras como Nilma Lino Gomes tambem nomeiam por outras vias: uma transmissao geracional de dor nao elaborada, que chega em quem nao viveu o evento original e mesmo assim carrega seu residuo. Epigenetica, psicanalise, sociologia convergem na intuicao de que heranca emocional existe.

O presente que continua matando

Luto coletivo preto brasileiro nao e so memoria — e atualidade. Enquanto se tenta elaborar a perda ancestral, o presente entrega novas. Policia mata. Feminicidio mata. Sistema de saude precario mata. Acidente de transito em estrada ruim mata. Cada morte soma a pilha que ninguem teve tempo de organizar. E, diferente da perda branca de classe media, a perda preta periferica quase nunca vem acompanhada de estrutura social para absorve-la — licenca de trabalho, apoio psicologico, auxilio funerario decente.

O resultado e uma populacao em luto permanente de baixa visibilidade. Nao o luto agudo dos primeiros meses, que a psiquiatria reconhece. O outro — o cronico, o ambiental, o que se mistura com rotina e nao pede espaco. Ate o dia em que pede, e ai aparece como depressao, hipertensao, alcoolismo, insonia que nenhum remedio cura.

Nem toda dor e heranca

Precisa cuidado para nao transformar heranca traumatica em destino. A narrativa de que todo sofrimento preto deriva da escravidao pode, paradoxalmente, roubar do sujeito presente sua propria biografia. Tem dor que e daqui mesmo, desse pai especifico, dessa relacao especifica, desse trabalho especifico. Se tudo e ancestral, nada e atual, e o trabalho clinico perde o solo.

Lelia Gonzalez dizia que o Brasil e amefricano no sentido ativo — uma experiencia singular, produzida aqui, que nao cabe em modelo importado nem em nostalgia africana. O luto coletivo preto brasileiro precisa ser lido com essa especificidade: escravidao, sim, mas tambem favela, sim, tambem intelectualidade preta, tambem samba, tambem universidade publica, tambem cota. Luto em camadas, nao so em abismo.

Ritualizar para atravessar

Culturas que enfrentaram perdas coletivas massivas construiram rituais — judeus tem shiva, povos indigenas tem ceremonias especificas, catolicos tem missa de setimo dia. A diaspora preta brasileira herdou e recriou varios: candomble, umbanda, congada, maracatu, samba-de-roda. Nao sao folclore; sao tecnologia de elaboracao de luto. Quando a igreja os demoniza e a classe media os exotiza, desorganiza-se um dispositivo de saude publica nao oficial.

Chorar o que nao foi chorado nao ressuscita ninguem, mas reorganiza quem fica. O luto coletivo preto brasileiro pede essa reorganizacao. Quando a gente devolve nome, ritual e linguagem as perdas historicas, libera um pouco da energia que o silencio consumia. Essa energia nao e pouca coisa — e ela que sustenta o trabalho de continuar produzindo vida num pais que ainda produz morte.

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