Militante preta exausta nao e sinal de fraqueza nem de causa perdida — e sintoma de um movimento que aprendeu a combater racismo sem aprender a descansar entre uma batalha e outra.
Conheco uma militante preta de quase cinquenta anos que organizou coletivo feminista negro por duas decadas, levou universitarias pretas para o mestrado, formou quadros politicos em tres estados. Hoje nao atende mais telefonema do movimento. Dorme mal. Ganhou peso. Nao entra em grupo de whatsapp. Quando pergunto como ela esta, responde que nao aguenta mais ser exemplo. Ela nao desistiu da causa. A causa, do jeito que foi operada, desistiu do corpo dela.
Luta sem infraestrutura
Movimento preto brasileiro contemporaneo produziu, nas ultimas duas decadas, conquistas politicas reais — cota, lei de feriado, pauta racial em debate publico, eleicao de quadros. Produziu tambem uma geracao de militantes esgotados. A conta basica nunca fechou: espera-se que a mesma pessoa trabalhe, cuide da familia, estude, produza conteudo, va a reuniao, responda jornalista, forme nova geracao e ainda sustente saude mental propria. Nao da.
Burnout, tecnicamente, e sindrome de exaustao cronica relacionada a trabalho, descrita pela OMS. Em ativismo preto, acrescenta-se uma camada: a propria identidade politica vira parte da demanda. Nao existe clock out. Racismo acontece no supermercado, na escola dos filhos, no uber, no feed. A militante esta sempre ao vivo. A recuperacao, que exige desconexao, vira culpa — descansar parece trair a luta.
A moral do sacrificio
Ha uma gramatica, herdada de diversas tradicoes de resistencia, que santifica o sacrificio do militante. Quem se cansa, fraquejou. Quem sai, traiu. Quem pede pausa, e pequeno-burgues. Essa moral teve funcao em contextos de luta armada ou de perseguicao politica aguda, onde recuo podia significar morte coletiva. Importada para o ativismo em redes sociais, ela apenas produz corpos quebrados e movimento cheio de ressentimento interno.
Audre Lorde escreveu que cuidar de si, em corpo preto, e guerra politica. Isso implica que descansar nao e abandonar a luta; e condicao para que a luta continue existindo em dez, vinte, trinta anos. Militante que nao descansa nao dura. Movimento de militantes que nao duram e movimento que precisa, a cada cinco anos, recomecar do zero a formacao de quadros. Isso e ineficiencia politica disfarcada de devocao.
Nem todo cansaco e burnout
Convem nao patologizar cada fadiga. Tem periodo de luta em que se trabalha muito e se dorme pouco porque a conjuntura exige — eleicao, caso publico, mobilizacao especifica. Esse cansaco agudo se resolve com repouso pos-evento. Burnout e outra coisa: e estado cronico em que o descanso ja nao recupera, em que a motivacao sumiu, em que cinismo substitui afeto pela causa. Confundir um com outro leva a decisoes ruins.
A pergunta clinica util e: se eu tirasse seis meses de licenca total do movimento, eu voltaria? Quem responde sim ainda esta cansado; quem responde nao sei ou nao quero esta em burnout e precisa de cuidado especifico, as vezes com ruptura mais radical do que simples ferias.
Organizar a luta para durar
Movimentos sociais pretos que duram, nacional e internacionalmente, costumam ter em comum algumas praticas: rodizio de lideranca, formacao de segunda e terceira linha, separacao entre vida militante e vida intima, recusa a estar ligado vinte e quatro horas, cultura interna de pedir ajuda sem vergonha. Onde isso nao existe, o movimento gira em torno de heroinas isoladas que acabam hospitalizadas ou em exilio interno.
- Instituir no coletivo periodos de recesso reais, em que ninguem cobra ninguem, como politica organizacional — nao como favor individual.
- Aceitar entrar e sair da linha de frente conforme o momento da vida; militancia nao precisa ser contrato vitalicio de tempo integral.
- Buscar supervisao psicologica ou grupos de apoio especificos para ativistas — existem, inclusive gratuitos, em varias capitais.
Luta preta brasileira nao precisa de mais martir. Precisa de gente viva, descansada, lucida, presente em vinte anos. Militante que se permite adoecer ate colapso esta entregando ao inimigo algo que o inimigo nao conseguiria tomar: o proprio corpo. Descansar, entao, nao e o oposto da luta — e a forma madura de continuar na luta sem virar monumento antes da hora.