Aceitar-se num país que te rejeita todo dia não é virada de chave. É obra lenta, artesanal, feita de pequenas insubmissoes que nenhuma autoajuda ensina.
Tem uma cena que se repete na vida de quase toda pessoa preta brasileira: o espelho do elevador de servico. A camera de seguranca que acompanha o passo. O olhar da vendedora que muda de temperatura quando voce entra na loja. Antes de qualquer discurso sobre amor-proprio, a aceitacao pessoal de quem e preto no Brasil comeca nesse campo minado onde o ambiente devolve, o tempo todo, uma imagem distorcida de voce mesmo. Nao e pouca coisa pedir que alguem se aceite enquanto e atravessado por tantas rejeicoes silenciosas.
O espelho envenenado
Neusa Santos Souza, em Tornar-se Negro (1983), ja avisava: a subjetividade preta no Brasil se constitui dentro de um ideal de ego branco. Ou seja, aprendemos a nos olhar com os olhos do outro, e esse outro quase nunca e generoso. A psique absorve a rejeicao como paisagem, nao como evento. E por isso que tantas vezes o desconforto com o proprio rosto, cabelo ou voz nao se apresenta como racismo — se apresenta como um incomodo vago, um cansaco, uma timidez que voce jura ser apenas temperamento.
So que temperamento nao explica tudo. Grada Kilomba (2019) chama isso de trauma racial: uma ferida que nao sangra em publico, mas estrutura o jeito de estar no mundo. Aceitar-se, nesse contexto, nao e um gesto intimo. E politico. E preciso desmontar, peca por peca, o espelho envenenado que nos foi entregue como se fosse o unico disponivel.
Contra o amor-proprio de vitrine
O mercado descobriu a autoestima preta e transformou tudo em slogan. Camiseta com punho cerrado, filtro de Instagram que engrossa o nariz, campanha de banco com bailarina de turbante. Nada disso e, por si, ruim — mas vira problema quando a aceitacao e vendida como produto acabado, como se bastasse comprar a pose certa para se libertar de seculos de interdicao. O amor-proprio de vitrine pede que voce esteja inteira antes de poder aparecer, e isso e mais uma armadilha.
A verdade e menos fotogenica. Tem dias em que a gente se olha no espelho e gosta. Tem outros em que a gente se olha e queria sumir. Djamila Ribeiro fala em lugar de fala, nao em lugar de cura permanente. Aceitar-se nao e chegar num ponto fixo de paz interior — e aprender a conviver com a oscilacao sem culpa, sem achar que voce falhou no projeto politico de ser preto feliz.
Aceitar nao e conformar
Ha uma confusao perigosa entre aceitacao e conformismo. Aceitar o proprio corpo preto nao significa aceitar que ele seja abordado na rua, preterido no afeto, suspeito no trabalho. Muita gente, cansada de lutar contra o mundo, confunde os dois movimentos e acaba fazendo as pazes com a opressao em nome de uma suposta serenidade. Isso nao e aceitacao. Isso e desistencia disfarcada de maturidade.
Fanon (1952) ja tinha percebido: a libertacao comeca quando voce para de querer ser branco e tambem para de querer ser o preto que o branco inventou. E um lugar terceiro, de invencao. Aceitar-se, no sentido forte, e se permitir ser uma pessoa inteira — com contradicoes, vaidades, medos, desejos — sem precisar performar uma negritude exemplar vinte e quatro horas por dia. Cansa. E cansaco tambem e racismo.
Pequenas praticas de insubmissao
Nao existe formula, mas existem gestos que, repetidos, vao reconstruindo um chao interno. Sao praticas miudas, quase banais, que funcionam melhor quando deixam de ser projeto e viram habito do corpo.
- Escolher espelhos — literais e simbolicos — que nao te devolvam apenas a versao domesticada de voce: terreiros, rodas, livros, amizades que te veem inteira.
- Nomear o que acontece: quando algo te feriu por racismo, dizer isso em voz alta (ao menos para si) desfaz o feitico do incomodo sem causa.
- Permitir-se dias ruins sem transformar cada um deles em fracasso identitario — voce nao deve paz interior a ninguem.
A aceitacao possivel, pra gente preta, nao e chegada. E caminhada cotidiana, feita de pequenas recusas a um mundo que insiste em nos oferecer versoes menores de nos mesmos. Nao e sobre amar tudo o tempo todo. E sobre nao pedir mais licenca pra existir do jeito que a gente e.