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Semana 52 · 2024

Meu caminho para terapeutas afirmativo

NARRATIVA 27 de dezembro de 2024 · Histórias
Capa: Meu caminho para terapeutas afirmativo

Antes de encontrar um terapeuta que me enxergasse por inteiro, passei anos traduzindo minha vida para profissionais que tratavam o racismo como detalhe biográfico.

A primeira vez que disse numa sala de terapia que tinha sido seguido no mercado, a psicóloga me perguntou se eu não estava sendo um pouco paranoico. Levei seis meses para voltar a falar do assunto em qualquer consultório. A ferida seguinte foi essa: aprender que parte do meu adoecimento era precisar explicar o obvio enquanto pagava a sessao.

O que uma escuta branca nao alcanca

Terapeutas bem-intencionados podem ler Frantz Fanon no mestrado e ainda assim devolver, no divã, um olhar que me obriga a ser porta-voz da raça inteira. Cada silêncio meu virava resistência ao processo. Cada raiva, um sintoma a ser aparado. O racismo que eu trazia para a sessão era tratado como conteúdo manifesto, quando era estrutura, clima, chão debaixo dos pés.

Djamila Ribeiro escreveu que lugar de fala não é sobre silenciar ninguém, mas sobre reconhecer de onde cada voz parte. Num consultório, isso importa mais do que parece. Quando o profissional nunca foi atravessado pelo dispositivo racial, ele ouve a minha história como caso clínico e não como sintoma de um país. A diferença entre essas duas escutas é o tamanho do meu cansaço no fim da semana.

Afirmativo nao e abracar, e sustentar

Tem um mal-entendido que precisa ser desmontado: terapeuta afirmativo não é aquele que concorda com tudo, que acolhe em tom de samba leve, que devolve frases de empoderamento encaixotadas. Se fosse isso, eu teria trocado uma muleta por outra. O que procurei, e demorei a encontrar, foi alguém capaz de segurar a complexidade sem reduzir, sem psicologizar o que era político e sem politizar o que era apenas dor subjetiva.

bell hooks, em Vivendo de Amor, fala do cuidado como prática de resistência. Na clínica, isso se traduz em não precisar justificar, toda sessão, por que certos gestos me machucam. Meu terapeuta atual é um homem preto, mais velho, que já trabalhou em CAPS de periferia. Não é a cor da pele dele que faz a terapia funcionar, é o repertório. Ele sabe o nome das coisas que me atravessam antes que eu termine a frase.

Nuance: nem todo preto me serve

Seria fácil, e falso, dizer que o caminho é simplesmente buscar um profissional negro. A identidade racial do terapeuta não é passe livre. Já fui atendido por uma mulher preta que reproduzia, com sotaque próprio, o mesmo moralismo meritocrático que aprendi a desconfiar nos espaços brancos. A escrevivência, no sentido que Conceição Evaristo cunhou, não se herda pela melanina. Ela se constrói na disposição de olhar para o próprio pertencimento sem romantizar.

O que funciona, aprendi na pele, é formação antirracista somada a experiência clínica somada a alguma humildade epistemica. Profissionais brancos podem chegar lá, desde que tenham feito o próprio trabalho. Profissionais pretos podem falhar, quando se convenceram de que a vivência basta. A categoria afirmativo não é crachá, é prática cotidiana.

Como eu filtraria, hoje, um terapeuta

Se eu tivesse que refazer a busca sem os anos perdidos, faria três perguntas logo na entrevista inicial, e escutaria mais o silêncio entre as respostas do que as respostas em si.

O caminho até o divã certo não é uma linha reta, é uma série de saídas. Cada terapeuta que não me serviu ensinou algo sobre o que eu precisava, e sobre o que eu recusava continuar suportando em nome de um processo que prometia cura e cobrava tradução. Hoje ocupo a sala sem precisar explicar que ser seguido no mercado não é paranoia, sem precisar justificar que meu cansaço não é fraqueza, sem precisar converter cada experiência racial em linguagem palatável para ouvidos que não conhecem o peso dela. Esse silêncio economizado virou matéria para a vida que acontece fora dali, onde afinal mora tudo o que importa.

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