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Semana 51 · 2024

Lições aprendidas com ancestrais

NARRATIVA 20 de dezembro de 2024 · Histórias
Capa: Lições aprendidas com ancestrais

Minha avó não leu Fanon nem Lélia Gonzalez, mas sabia, antes de qualquer tratado, que certas dores não se dividem com quem nunca as carregou no corpo.

Dona Benedita morreu aos oitenta e nove anos num quarto de fundo, com um terço na mão e uma caixa de biscoito cheia de fotografias amareladas debaixo da cama. Quando abri a caixa, meses depois, entendi que ela tinha me deixado uma biblioteca. Não de livros, de gestos. Cada retrato era uma aula que ela não conseguiu verbalizar e que eu precisei aprender a decifrar.

A sabedoria que nao cabia no portugues formal

Minha avó falava um português próprio, atravessado por expressões que a escola teria corrigido. Chamava depressão de fastio, chamava crise de ansiedade de aperto no peito, chamava trauma de ferro encravado. O vocabulário dela parecia pobre para ouvidos universitários, mas nomeava com precisão cirúrgica estados que a psicologia só aprendeu a descrever muito depois.

Carolina Maria de Jesus fez isso em Quarto de Despejo, em 1960: transformou a linguagem da fome e do abandono em literatura, sem pedir licença à norma culta. Minha avó não escrevia, mas fazia o mesmo movimento no oral. Quando dizia que fulana estava com o juízo cansado, não era metáfora frouxa, era diagnóstico. E vinha com receita: chá, silêncio, uma tarde no quintal, o rosário, a vizinha sentada do lado sem precisar dizer nada.

Contra a romantizacao da forca preta

Existe uma armadilha em falar de ancestrais e correr o risco de transformá-los em monumentos de resistência inquebrável. Minha avó não era forte o tempo todo. Chorava escondido na cozinha, tomava remédio para dormir, tinha medo do trovão e do filho que não voltava. A narrativa da mulher preta guerreira, tão mobilizada em redes sociais e campanhas publicitárias, teria aborrecido ela profundamente.

Maya Angelou escreveu que ninguém consegue fazer sozinho o trabalho de se manter inteiro. A lição ancestral que recebi não foi a de aguentar calado, foi a de reconhecer quando a conta apertava demais e pedir ajuda, mesmo que em código. Meu avô pedia cachaça. Minha tia pedia oração. Meu pai pedia silêncio absoluto na sala. Cada um tinha o próprio idioma de socorro, e a família lia sem precisar traduzir.

O que a ancestralidade ensina sobre tempo

Vivemos numa cultura que confunde pressa com produtividade e insiste em tratar a dor como problema a ser resolvido em quatro sessões de terapia breve. Meus ancestrais conheciam um outro tempo, o tempo do luto longo, da reza que se repete porque o corpo precisa daquele ritmo, da história contada três vezes porque na terceira vez alguém finalmente chora.

Ta-Nehisi Coates fala, em Entre o Mundo e Eu, de como a memória coletiva preta é feita de camadas que não se organizam em linha reta. A ancestralidade que herdei não é uma árvore genealógica bem desenhada, é um sedimento. As lições chegam fora de hora, quando estou lavando louça, quando ouço uma música específica, quando uma pessoa mais velha na fila do banco me chama de filho. É nesses momentos que percebo: não fui criado só pelos meus pais, fui criado por uma corrente que começou muito antes deles.

Como transformar heranca em pratica

A ancestralidade corre o risco de virar estética quando não vira ação. Para não perder o que me foi deixado, faço três coisas que tento manter como disciplina, mesmo nas semanas em que o trabalho engole tudo.

O que aprendi com os meus não cabe em manual de autoajuda nem em tese acadêmica, embora as duas coisas possam iluminar o caminho. Cabe no jeito como respiro quando alguém me ofende na rua, no prato que sirvo quando chega visita, na música que coloco quando a casa precisa de ar. Ancestrais não são passado, são método.

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