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Semana 50 · 2024

Transformação pessoal através da comunidade

NARRATIVA 13 de dezembro de 2024 · Histórias
Capa: Transformação pessoal através da comunidade

Cresci acreditando que autoconhecimento era viagem solitária. Levei quase três décadas para entender que nunca me transformei de fato longe das pessoas que me obrigaram a prestar contas.

Num sábado qualquer, sentado numa roda de homens pretos que se encontrava todo mês no galpão de um centro cultural na Zona Leste, ouvi um cara da minha idade descrever exatamente o medo que eu nunca tinha conseguido nomear. Ele falou por mim sem saber. E algo que a terapia individual tinha tentado desatar durante anos cedeu em vinte minutos de escuta coletiva.

O mito da jornada solitaria

A indústria do desenvolvimento pessoal vendeu a uma geração inteira a fantasia de que crescer é um projeto individual, que se realiza com planilhas, meditação guiada por aplicativo e retiros caros em destinos exóticos. Essa gramática tem uma origem geográfica específica e uma ideologia embutida. Não é universal, e, pior, ela adoece de um jeito particular quem cresceu em contextos onde a sobrevivência sempre foi tarefa coletiva.

bell hooks insistia que a cura do sujeito preto passa necessariamente pela construção de comunidades amorosas. Não por romantismo. Por constatação clínica. Um corpo que foi ferido em contextos coletivos, pela escola, pela polícia, pela mídia, não se recompõe num quarto fechado por mais incenso que se acenda. Precisa ser visto, dito, espelhado por outros corpos que carregam histórias parecidas.

Comunidade nao e zona de conforto

Quem nunca frequentou um grupo de apoio, um terreiro, um coletivo de estudos, um time de futebol de várzea ou uma igreja pode imaginar que comunidade é lugar de concordância. Não é. As comunidades que me transformaram foram precisamente aquelas em que eu fui confrontado, às vezes com rispidez, por pessoas que não estavam dispostas a aplaudir minhas contradições só porque compartilhávamos a mesma cor.

Num coletivo de pais pretos que frequentei por dois anos, fui questionado sobre como reproduzia, com meus filhos, exigências de performance que me machucaram quando criança. Levei semanas para aceitar a crítica. Se estivesse sozinho com meus pensamentos, teria racionalizado a prática indefinidamente. A comunidade me forçou a parar. Essa fricção é o oposto de conforto, e é exatamente por isso que funciona.

Quando a roda falha

Seria desonesto escrever sobre transformação coletiva sem reconhecer que muitos espaços que se anunciam como comunidade reproduzem, por dentro, as mesmas violências que dizem combater. Já vi coletivos negros adoecerem por disputa de poder, por machismo não elaborado, por dinâmicas de fofoca que destruíram amizades inteiras. Não existe pureza no encontro humano, e prometer isso é vender ilusão.

James Baldwin escreveu que o amor, quando é real, tira as máscaras que tememos não conseguir viver sem. A mesma lógica vale para a comunidade. Aquela que te transforma é aquela disposta a ver o que você é, incluindo as partes que você gostaria de esconder, e a sustentar a relação ainda assim. Se o espaço exige que você esconda, não é comunidade, é plateia.

Como encontrar e sustentar um coletivo

Não existe receita universal, mas existem sinais que aprendi a ler depois de errar muito. Se você está procurando um espaço que efetivamente te mova, preste atenção no que acontece nos primeiros três encontros.

O sábado que mencionei no início foi há sete anos. O grupo mudou de endereço três vezes, perdeu gente, ganhou gente, quase acabou duas vezes por brigas internas que a gente levou meses para elaborar. Sigo indo. Não porque encontro respostas prontas ali, não porque saio de cada encontro leve, às vezes saio mais pesado do que entrei. Sigo porque aprendi que algumas perguntas só sobrevivem quando são feitas em voz alta, diante de testemunhas que não vão me deixar fugir delas na segunda-feira, quando o mundo voltar a exigir que eu finja estar inteiro.

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