Os encontros que realmente me deslocaram não aconteceram em congressos nem em viagens caras. Aconteceram em filas, ônibus, velórios e numa cadeira de barbeiro na quebrada.
O homem que mudou a minha ideia sobre masculinidade preta não era autor, nem palestrante, nem terapeuta. Era o seu Antônio, barbeiro de setenta e dois anos, que certa tarde, enquanto aparava minha barba, soltou uma frase que eu estava precisando ouvir há uma década e não sabia. Saí daquela barbearia com o rosto arrumado e uma certeza desfeita.
A pedagogia das conversas curtas
Vivemos numa época que supervaloriza o formato longo, o podcast de quatro horas, o curso com vinte módulos, o livro de quinhentas páginas. Paradoxalmente, as intervenções que mais me reorganizaram vieram em frases de dez segundos ditas por pessoas que não tinham intenção pedagógica nenhuma. Eram observações laterais, comentários soltos, perguntas inesperadas que abriram portas internas que eu nem sabia existir.
Conceição Evaristo chama essa atenção à fala comum de escrevivência porque a experiência preta, quando dita, escapa ao enquadramento acadêmico e reorganiza o que chamamos de saber. Numa conversa de bar, numa caixa de supermercado, num elevador, circula um tipo de conhecimento que não é anedota nem sabedoria de boteco. É epistemologia viva, e reconhecer isso exige deixar de hierarquizar vozes pelo diploma de quem fala.
O encontro que nao busquei
Desconfio das listas de livros que prometem transformar a vida e dos mentores cuidadosamente selecionados por algoritmo. Os encontros que me deslocaram foram, quase todos, acidentais. A mulher no velório da tia, que sentou do meu lado e contou, sem eu pedir, como tinha atravessado a morte do próprio filho. O motorista de aplicativo que, num trajeto de cinquenta minutos, reorganizou minha relação com dinheiro ao descrever como sustentou três filhos vendendo churrasco aos domingos.
Maya Angelou escreveu que as pessoas esquecem o que você disse, mas nunca esquecem como você as fez sentir. A lição que herdei dos encontros fortuitos é outra face dessa mesma moeda. Eu não lembro com precisão o que o seu Antônio falou naquela tarde, mas lembro com clareza a sensação de ter sido visto por um homem mais velho que não tinha interesse em me corrigir, só em me registrar.
Contra a espera pelo evento raro
Existe um risco ao exaltar os encontros transformadores, que é criar a expectativa de que eles são raros, especiais, reservados a quem tem sorte ou discernimento. Não é verdade. Esses encontros acontecem com frequência maior do que imaginamos. O que falta, quase sempre, é disponibilidade interna para reconhecê-los no momento em que acontecem. Passei anos cruzando com pessoas que tinham algo a me dar e desviando o olhar porque estava ocupado demais com o próprio roteiro.
Ta-Nehisi Coates argumenta que o corpo preto no Ocidente vive em estado permanente de alerta, e esse alerta cobra um preço cognitivo altíssimo. Reaprender a estar presente, a escutar a velha senhora da padaria, a trocar duas frases com o segurança do prédio, a olhar nos olhos do entregador, é um exercício político e psíquico. Não é gentileza performática. É recuperação de uma capacidade que o trauma e a pressa tentaram apagar.
Como criar condicoes para o encontro
Não se pode agendar acaso, mas dá para preparar o solo. Depois de muito refletir sobre os encontros que mais me marcaram, notei que eles tinham em comum condições que eu posso, deliberadamente, cultivar no cotidiano.
- Diminuir a velocidade em trajetos rotineiros, para que conversa com vizinho ou porteiro caiba no dia sem virar sobrecarga.
- Frequentar espaços intergeracionais, onde mais velhos e crianças circulam juntos, porque é ali que a sabedoria não didática vaza.
- Desconfiar do próprio pressuposto de que já se sabe quem a outra pessoa é antes dela dizer.
O seu Antônio se aposentou no ano passado e a barbearia fechou. Passo na rua e vejo a placa desbotando. Não tenho como agradecer do jeito que gostaria, então faço o que aprendi com ele. Paro, escuto o próximo desconhecido que tiver algo a dizer, e procuro reconhecer, enquanto ele fala, o peso do que está sendo oferecido antes que o encontro termine.