Ninguém me ensinou a gostar do meu corpo. Aprendi à força, contra o espelho, contra a propaganda, contra a professora que dizia cabelo arrumado como se fosse sinônimo de cabelo liso.
Tinha nove anos quando pedi para minha mãe alisar meu cabelo pela primeira vez. Ela olhou demorado, sem raiva, e disse: depois. Esse depois durou quinze anos. Quando finalmente entendi por que ela esticou aquele depois, já era tarde para certas coisas e cedo para outras — tarde para desfazer o que o espelho tinha feito comigo, cedo para saber o tamanho do que eu ia precisar reconstruir.
A infância é um salão de beleza
Cresci entre escovas quentes, pentes que ardiam no couro cabeludo e um vocabulário inteiro para descrever o meu corpo por subtração: cabelo ruim, nariz largo, bunda grande demais, boca grande demais. A gramática era essa — sempre um demais, sempre um ruim. Maya Angelou tem uma frase sobre carregar a própria beleza como se ela fosse um segredo proibido. Carreguei a minha assim até quase os vinte.
Não era vaidade. Era sobrevivência mal orientada. A criança preta aprende cedo que ser olhada é perigo e não ser olhada é apagamento, e passa a vida negociando essa gangorra sem saber que está negociando. Pesquisas na área de psicologia do desenvolvimento vêm mostrando que esse apagamento tem nome clínico, mas qualquer menina preta de quebrada sabia disso antes de qualquer diagnóstico.
Contra a estética da transição
Quando cortei o cabelo alisado, a internet chamou aquilo de transição. A palavra me incomodou desde o primeiro dia. Transição de onde para onde? Eu não estava indo a lugar nenhum. Estava voltando. Estava devolvendo ao meu corpo o que tinha sido tirado dele por uma pedagogia silenciosa que começou antes de eu saber ler.
A narrativa fofa do big chop libertador também me incomoda. Porque não foi libertador. Foi estranho, foi feio em alguns dias, foi bonito em outros, foi político em todos. bell hooks escreveu que o cabelo da mulher preta sempre foi território ocupado. Desocupar dói, coça, irrita o couro cabeludo e irrita o olhar alheio. E tudo bem. Libertação que não incomoda ninguém geralmente é só marketing.
O corpo como primeiro território
Aceitação é uma palavra fraca para o que aconteceu. Aceitar soa a conformar. O que vivi foi outra coisa — foi reencontro, foi reconhecimento. Passei a olhar minhas coxas e ver a minha avó. Passei a tocar meu cabelo e ouvir uma memória que não era minha, era de antes, era de muitas. Carolina Maria de Jesus escreveu o corpo na fome, e mesmo ali havia dignidade. O corpo preto é arquivo.
Tenho dias ruins ainda, claro. Tem dia que o espelho me devolve o olhar de alguém que não sou mais, e tem dia que me devolve ninguém. O trabalho de reabitar o próprio corpo não termina; muda de fase. Mas já não quero um depois como minha mãe me ofereceu. Quero agora, mesmo que agora seja um agora difícil, manchado, inteiro.
Aprendizados que ficaram de pé
Se eu pudesse escrever uma carta para a menina de nove anos que pediu escova progressiva, não falaria de autoestima. Falaria de companhia. Porque a gente não se aceita sozinha — a gente se aceita junto, em roda, com quem já atravessou. O que me ajudou a ficar de pé nesse processo:
- Trocar a pergunta estou bonita por estou inteira, que é uma pergunta muito mais interessante e muito menos gastadora.
- Procurar imagens, mulheres, textos, filmes onde corpos pretos existem sem precisar explicar nada a ninguém.
- Guardar o direito de mudar de ideia sobre o próprio cabelo, roupa, peso, sem dever satisfação à militância nem ao mercado.
Meu corpo não é bandeira e não é desculpa. É o primeiro lugar onde eu moro. Levei três décadas para entrar de vez, e ainda tem cômodo que estou mobiliando. Não sei se chego a chamar isso de amor próprio — essa palavra me cansa. Chamo de presença. Estar presente no próprio corpo, inteira, sem pedir passagem. Penso na minha mãe estendendo aquele depois por quinze anos e entendo, agora, que ela estava ganhando tempo para mim sem saber exatamente o quê. Talvez estivesse esperando que o mundo mudasse um pouco antes que eu precisasse entrar nele com cabelo liso. O mundo não mudou o suficiente, nem ia. Mas entrei mesmo assim, com o cabelo que tenho, com o corpo que tenho, com a memória que carrego. Para mim, por enquanto, é o suficiente.