Violência racial não termina quando o episódio acaba. Ela instala um relógio dentro da gente que volta a tocar em lugar nenhum, no meio da rua, no meio do sono, sem aviso.
Foi num posto de gasolina na Marginal. Eu tinha vinte e seis anos e acreditava, com a ingenuidade que só os diplomas dão, que certas coisas não aconteciam comigo. Aconteceu em dois minutos. Um segurança, uma pergunta, uma mão no meu braço, um olhar do frentista que desviou. Nenhum soco. Nenhum sangue. E mesmo assim, alguma coisa em mim ficou ali, naquele asfalto, por muito tempo.
A ferida que não aparece no raio-x
O corpo preto brasileiro carrega uma genealogia de violência que não é metáfora. É material. Ta-Nehisi Coates, escrevendo para o filho em Entre o Mundo e Eu, dizia que a primeira coisa que ele precisava entender era que seu corpo podia ser quebrado. No Brasil, a gente sabe disso antes de aprender a ler; só não tem palavra ainda.
Depois daquele posto, desenvolvi hábitos que chamei, por muito tempo, de precaução. Trocar de calçada. Evitar certos lugares. Acordar cedo no dia seguinte para não acordar no meio da noite com o episódio voltando. Pesquisas sobre trauma racial mostram que esse padrão tem nome, mas naquela época eu chamava de vida normal, que é como o racismo gosta de ser chamado.
O mito da superação rápida
Existe uma pressão, mesmo dentro do nosso próprio meio, para transformar dor em narrativa de superação antes que a dor termine de falar. A pessoa sofre violência e, na semana seguinte, já espera-se um post inspirador, uma lição, uma virada. Essa economia da superação é cruel. Ela rouba o tempo que a ferida precisa para fechar direito.
James Baldwin dizia que nem tudo que se enfrenta pode ser mudado, mas nada pode ser mudado enquanto não for enfrentado. A frase é citada à exaustão, e quase sempre fora de contexto. Enfrentar não é encerrar. É olhar de frente, às vezes por anos, sem exigir do próprio corpo que ele vire palestra motivacional. Reconstrução tem ritmo próprio, que o mercado editorial não controla.
Reconstruir não é voltar a ser
Passei muito tempo querendo voltar a ser quem eu era antes do posto de gasolina. Era uma fantasia. A pessoa anterior não existe mais e, em certo sentido, é melhor que não exista. O trabalho de reconstrução não é restaurar a inocência; é construir uma pessoa nova que saiba o que a anterior não sabia, sem deixar que esse saber vire prisão permanente.
A terapia antirracista me ajudou a separar medo real de medo treinado. Nem todo posto de gasolina é aquele posto. Nem todo segurança é aquele segurança. Mas o mundo continua sendo o mundo que produziu o episódio — e essa é uma verdade que eu precisava sustentar sem me paralisar. Entre o alerta permanente e o esquecimento ingênuo, existe uma faixa estreita que se aprende a habitar.
O que sustentou a travessia
Reconstruir depois de violência racial é tarefa coletiva, mesmo quando parece solitária. Ninguém se cura sozinho do que a estrutura produziu em série. O que me devolveu ao mundo, aos poucos:
- Um grupo pequeno de pessoas pretas onde eu podia contar o episódio sem ter que explicar o contexto — o contexto já era compartilhado.
- Movimento físico lento e repetido — caminhada, natação, dança — porque o corpo precisa lembrar que ainda é dele.
- Leitura de autoras e autores que já tinham atravessado coisas parecidas e sobrevivido para contar, o que é a forma mais útil de esperança que conheço.
Hoje passo por aquele posto sem desviar. Não por coragem, mas por cansaço de desviar. A cicatriz está lá, às vezes acesa, às vezes fria. Não faço dela bandeira. Faço dela bússola. Ela me lembra, toda vez que penso em baixar a guarda do mundo, que o mundo é esse mesmo — e que seguir vivo, preto, inteiro, já é uma forma de recusa que ninguém precisa me autorizar. Aprendi também a não medir minha recuperação pela régua dos outros. Teve quem dissesse, com a melhor das intenções, que eu precisava virar a página. Virei no meu tempo, do meu jeito, e descobri que virar página é uma expressão ruim para descrever o que acontece. A gente não vira; a gente vai aprendendo a ler aquela página junto com as seguintes, sem rasgar nenhuma, sem fingir que não está lá.