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Semana 45 · 2024

Maternidade e luta antirracista

NARRATIVA 8 de novembro de 2024 · Histórias
Capa: Maternidade e luta antirracista

Ser mãe preta no Brasil é parir com o ouvido no chão. A gente escuta a sirene antes dela chegar. Aprende, no corpo, que amor e vigilância são a mesma palavra dita em duas línguas.

Meu filho nasceu numa quarta-feira de outubro, dois quilos e oitocentos, cabelo cheio. No quarto da maternidade, enquanto ele dormia no meu peito, pensei uma coisa que nenhuma mãe deveria precisar pensar no primeiro dia: quantos anos eu tenho até precisar ter a conversa. A conversa sobre abordagem policial, sobre tom de voz, sobre as mãos sempre visíveis. Comecei a contar os anos no segundo em que ele abriu os olhos.

O parto que não termina

Maternidade preta é um parto que não termina no parto. Você continua parindo criança todo dia, em cada esquina nova, em cada professor novo, em cada médico que olha de lado. Carolina Maria de Jesus, catando papel com três filhos na favela do Canindé, escreveu que a fome era a amargura diária. Hoje, a amargura mudou de endereço, mas mudou menos do que a gente gostaria de acreditar.

Pesquisas recentes sobre saúde mental materna indicam taxas mais altas de depressão pós-parto entre mulheres pretas brasileiras. A explicação fácil atribui a renda. A explicação honesta inclui o peso de saber, antes de dormir, que seu bebê vai ser lido pelo mundo antes de conseguir se apresentar. Essa consciência antecipada é um trabalho invisível que ninguém remunera e poucos nomeiam.

Contra a maternidade como expiação

Existe uma mitologia tóxica que transforma a mãe preta em símbolo de resistência antes mesmo dela poder ser pessoa. A mãe guerreira, a mãe que aguenta, a mãe que carrega o mundo nas costas. Essa imagem, que parece homenagem, é camisa de força. Ela me proíbe de cansar, de errar, de querer menos, de duvidar.

bell hooks escreveu sobre o amor como prática política, não como sentimento dado. Amar um filho preto neste país é prática política, sim, mas não é a prática de sacrificar-se até sumir. É a prática de ensinar esse filho que ele tem direito ao tédio, à bobagem, à infância lenta — coisas que historicamente foram negadas a crianças pretas em nome de uma precocidade forçada. Deixar meu filho ser criança é um ato antirracista que não cabe em camiseta.

Entre proteger e não encolher

O dilema mais duro da maternidade preta, para mim, nunca foi entre trabalhar e cuidar. Foi entre proteger e não encolher. Se eu protejo demais, eu encolho a vida dele antes do mundo encolher. Se eu protejo de menos, mando uma criança sem mapa para um terreno minado. Essa calibragem não tem manual. Só tem as outras mães, as tias, as avós, o terreiro, a roda.

Conceição Evaristo escreveu sobre o direito de sonhar mesmo quando o sonho parece desajustado ao tamanho do quarto. Eu quero que meu filho sonhe grande sem ingenuidade, que saiba o peso do mundo sem deixar o mundo pesar nele. É um equilíbrio impossível que eu vou errando com amor, corrigindo no meio do caminho, sem me cobrar perfeição de onde perfeição nunca foi oferecida.

O que levo para a próxima geração

Não escrevo manual de maternidade e desconfio de quem escreve. Mas posso dizer o que, até agora, funcionou comigo — funcionar aqui significa manter a gente inteira, eu e ele, em dias de vento contra:

Meu filho vai ter a conversa algum dia. Vai ter outras conversas que eu não consigo prever. O que quero deixar, para muito além dos protocolos, é uma memória corporal de colo, de riso fácil, de casa onde ele pôde ser bobo. Porque o mundo vai cobrar dele seriedade cedo, e a única coisa que sobra contra essa cobrança é a memória do tempo em que ele pôde simplesmente ser um menino, sem adjetivos, no colo de uma mulher que escolheu amá-lo como recusa e como futuro.

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