Tem gente que mudou de cidade e não conhece ninguém que se pareça com ela. Tem gente que entrou na faculdade, no emprego novo, no condomínio, e percebeu, só depois de um tempo, que era a única pessoa preta na sala e que ninguém tinha avisado como isso pesa. Tem gente que cresceu numa família branca, num bairro sem quase nenhuma referência preta por perto, e carrega uma sensação de deslocamento que nunca teve nome certo. E tem gente que sabe, teoricamente, que existem coletivos, grupos, encontros, mas nunca participou de nenhum, porque a vergonha de precisar disso é maior que a vontade de tentar. Essa gente também é o público desse texto.
A solidão que ninguém apresenta direito
Existe um tipo específico de cansaço em ser a única pessoa preta num ambiente. A socióloga Rosabeth Moss Kanter descreveu, ainda nos anos setenta, o que acontece com quem ocupa, sem mais ninguém igual por perto, um lugar num grupo social: a pessoa vira, ao mesmo tempo, hipervisível (todo erro é notado, toda fala é lida como representativa de um grupo inteiro) e invisível (as próprias necessidades somem de vista, porque ninguém em volta pensou nelas primeiro). Esse paradoxo tem nome, tokenismo, mas raramente chega como explicação pra quem vive ele todo santo dia. O que chega, com mais frequência, é a sensação confusa de estar sempre em falta com alguma coisa, sem saber exatamente o quê.
Grada Kilomba, em Memórias da Plantação, descreve como o ambiente majoritariamente branco cobra de quem é preto uma tradução constante: explicar a própria dor, adaptar o próprio jeito de falar, sorrir em situação que não tem graça nenhuma, só pra manter o clima leve pros outros. Isso cansa de um jeito que não aparece em exame de sangue. E, quando finalmente sobra energia pra procurar outro tipo de convívio, bate uma pergunta sem resposta pronta: procurar onde? Como se apresentar num espaço que talvez já tenha suas próprias regras, seu próprio histórico, sua própria intimidade construída sem você?
A vergonha de precisar
Ninguém avisa que pedir companhia dá vergonha. A ideia de que gente preta tem que dar conta sem apoio de ninguém, de que precisar de comunidade é sinal de fraqueza, circula solta demais pra ser coincidência. Ela mora em frases feitas como "eu nunca dependi de ninguém" ditas como elogio, na cobrança implícita de que resiliência significa não precisar de rede, na vergonha de admitir, mesmo pra si, que a solidão dói e que companhia faz falta. Só que essa vergonha é ela mesma parte do problema: quanto mais alguém acredita que precisar é fraqueza, mais adia o primeiro contato, e mais o isolamento se instala como hábito.
O medo de "chegar chegando" também pesa. É comum imaginar que todo espaço coletivo já tem um grupo fechado, uma linguagem própria, um jeito de se vestir e de falar que quem chega de fora não domina. Às vezes é verdade: alguns espaços realmente cobram um tipo de pertencimento anterior, e é possível aparecer uma vez e sentir que não encaixou, ou pior, receber a mesma frieza que se temia. Isso acontece, e dói quando acontece. Mas parte do medo, não tudo, é projeção da própria insegurança, não leitura precisa do ambiente. E o único jeito de saber em qual das duas situações a pessoa está é aparecer, uma vez, sem prometer nada além de observar.
Comunidade se constrói, não se encontra pronta
O sociólogo jamaicano Stuart Hall escreveu sobre identidade cultural e diáspora que pertencimento não é um lugar fixo esperando alguém chegar, é um processo que se refaz a cada encontro, a cada conversa, a cada gesto repetido com constância. Isso alivia uma pressão específica: não existe comunidade perfeita pronta pra ser encontrada de primeira. Existe processo. E processo se inicia pequeno.
O primeiro passo raramente é dramático. Pode ser seguir uma página, um perfil, um coletivo que já fala do jeito que faz sentido pra você, só pra ver como aquele espaço se comunica antes de entrar nele. Pode ser aceitar um convite que chegou meio sem graça, pra um encontro, uma roda, uma reunião de bairro, mesmo sem conhecer ninguém lá. Pode ser procurar, na própria cidade, grupos de estudo, coletivos de profissionais, rodas de leitura, terreiros, encontros de bairro organizados por gente preta, sem exigir de si mesma que o primeiro contato já seja profundo. Pode ser, ainda, procurar apoio individual, com uma psicóloga ou um psicólogo preto, pra atravessar a vergonha antes de atravessar a porta de um espaço coletivo. Nenhuma dessas entradas é pequena demais pra valer.
Vale também soltar a régua de que participar precisa ser constante desde o início. Ir uma vez, observar, sair sem se comprometer com mais nada, já é dado suficiente pra decidir se aquele espaço serve. A comunidade que vai sustentar alguém no futuro quase nunca é a primeira que essa pessoa experimenta. Costuma vir depois de mais de uma tentativa: descartar espaço que não combinava, às vezes espaço que recebeu mal quem chegou, e ajustar o que estava procurando. Isso não é fracasso, é o processo funcionando do jeito que costuma funcionar, mesmo quando dói no meio do caminho.
Quem lê esse texto sem ninguém por perto, numa cidade nova ou numa vida inteira sem coletivo, não está atrás de ninguém. Está no degrau que vem antes, o que raramente alguém nomeia, o que a comunidade, quando já formada, esquece que também atravessou. Às vezes o espaço que faria sentido nem existe perto, e aí o primeiro passo é outro: começar um, mesmo pequeno, ou buscar num formato online até que apareça um presencial. Dar o primeiro passo não exige coragem heroica, mas exige aceitar o risco de não dar certo de cara. O que sustenta esse risco é lembrar que precisar de gente não é o oposto de força, é parte de como a gente preta sempre resistiu, junto, desde sempre.
Este texto tem caráter educativo e de reflexão cultural. Não substitui o atendimento psicológico individual. Se você está atravessando um sofrimento intenso, procurar uma psicóloga ou um psicólogo pode ajudar, e o acolhimento existe: o CVV atende 24 horas pelo telefone 188, de forma gratuita e sigilosa.