Sororidade virou palavra de camiseta, hashtag de março, slogan de marca. E, no caminho, quase perdeu o que tinha de mais incômodo: a ideia de que mulher preta precisa de outra mulher preta para respirar.
Num sábado qualquer, num salão de quebrada, enquanto o cabelo hidrata sob a touca, conversa-se sobre ex, chefe, médico que não escutou, filho que não dorme. Não existe terapeuta naquela sala, e ainda assim alguma coisa de cura acontece. É fácil romantizar a cena — e é exatamente por isso que ela merece ser levada a sério como política, não como anedota afetiva.
Antes da palavra, a prática
bell hooks escreveu, em "Sisters of the Yam" (1993), que mulher preta cuidando de mulher preta não é gesto espontâneo — é aprendizado. Porque o mundo ensina, desde cedo, que outra mulher é competidora: pelo emprego, pelo homem, pela validação. Desaprender isso é trabalho. Lélia Gonzalez já tinha apontado, anos antes, que a solidariedade entre mulheres negras no Brasil se construiu em espaços que o Estado nunca nomeou como política — cozinhas, terreiros, quintais, maternidades improvisadas.
Essa genealogia importa porque nomeia o que é sororidade preta sem pedir licença. Não é a descoberta de uma geração de influenciadoras. É continuidade de uma prática antiga, que sustentou gente em situação de escravização, em cortiço, em favela, em periferia planejada. A palavra nova batiza o velho — o risco é achar que inventou.
O feminismo universal não dá conta
Quando sororidade é apresentada como "irmandade entre todas as mulheres", a conta não fecha. Angela Davis, em "Mulheres, Raça e Classe" (1981), já tinha mostrado como o feminismo hegemônico historicamente construiu sua agenda sobre o corpo da mulher negra trabalhadora — cobrando dela cuidado, maternidade terceirizada, limpeza. Irmandade sem análise de raça e classe vira, na melhor das hipóteses, happy hour. Na pior, exploração com verniz progressista.
Não se trata de recusar aliança. Trata-se de recusar a fantasia de que basta compartilhar gênero para compartilhar experiência. A mulher preta que limpa o apartamento da feminista branca não está numa relação de sororidade — está numa relação de trabalho. Fingir o contrário é confortável para um dos lados.
O mito da mulher preta forte
Há um outro risco, mais interno. A cultura enaltece a "mulher preta forte" — aquela que aguenta tudo, cria os filhos, segura a casa, ainda sorri. Esse elogio é uma armadilha que se apresenta como homenagem. Quando sororidade é entendida como "nos apoiamos porque somos fortes", a força vira obrigação. Quem não está dando conta sente vergonha de aparecer na roda.
Beatriz Nascimento falava do cansaço como dado histórico, não como fraqueza pessoal. Sororidade que presta tem que caber o choro sem conselho, a desistência sem julgamento, o silêncio sem cobrança. Apoio entre iguais não é pep talk — é ombro, e às vezes é dinheiro emprestado, e às vezes é carona para o posto de saúde. Quando não cabe o cansaço, a irmandade vira mais uma performance de eficiência. E aí ninguém descansa de verdade.
O que segura a roda
Sororidade preta não se decreta em post. Ela se mantém com combinados pequenos, repetidos, e com alguma disposição para o conflito, que é o que nenhuma fantasia de irmandade gosta de mencionar. Brigar, fazer as pazes, voltar, errar, pedir desculpa — isso é roda viva, não fracasso.
- Criar espaços regulares de escuta sem pauta — grupo de WhatsApp, café mensal, círculo de leitura — onde não precise entregar nada.
- Dividir dinheiro de verdade: vaquinha para consulta, empréstimo sem juros, indicação profissional remunerada.
- Nomear os conflitos internos com honestidade — racismo entre mulheres pretas existe (colorismo, classe, orientação) e não some por omissão.
A força não vem de uma palavra importada de um feminismo que não nos incluiu primeiro. Vem de uma prática que mulher preta vem afinando há séculos, com outros nomes, em outros cômodos. Sororidade, quando presta, é só o apelido recente de uma tecnologia antiga de sobrevivência coletiva — e essa tecnologia não cabe em camiseta.