O cuidado coletivo nao e a versao comunitaria da terapia individual, e sua critica mais severa. Desloca o sintoma do corpo isolado pra teia de relacoes que o produziu.
Num sabado de manha em Salvador, no Nordeste de Amaralina, vi uma cena que continua me rondando. Quatro mulheres, tres pretas e uma parda, sentadas em cadeiras de plastico num quintal, revezando quem segurava o bebe de uma delas, enquanto outra chorava uma separacao recente e uma terceira preparava cafe. Nao era terapia, nao era grupo de apoio formal, nao tinha nome. Era, pra usar o vocabulario mais antigo disponivel, comadrio. E fazia, naquela manha, um trabalho psicologico que nenhum consultorio da cidade conseguiria substituir. E dessa cena que precisamos partir quando se fala em cuidado coletivo.
O que o consultorio nao faz
A terapia individual, quando e boa, faz muita coisa. Ajuda a nomear, a organizar, a historicizar a dor. Mas ela opera num recorte que e proprio do seu formato: uma pessoa, uma hora, uma semana, um valor. Esse recorte foi naturalizado como se fosse a unica porta legitima da saude mental, e nao e. Ele e uma porta, entre varias que foram fechadas pela lenta profissionalizacao dos cuidados no seculo vinte. Angela Davis, num texto de 2020 sobre abolicao e cuidado, lembra que as formas mais profundas de cura que ela conheceu nao aconteceram em clinicas, aconteceram em cozinhas.
Ruth Wilson Gilmore, pensando geografia carceraria nos Estados Unidos, usa uma formula que se aplica aqui: onde a vida e preciosa, a vida e preciosa. Quer dizer, o cuidado nao e atributo natural de comunidades marginalizadas, e construcao deliberada, feita contra a precariedade imposta. O cuidado coletivo preto, no Brasil, nasce da impossibilidade de esperar que o Estado ou o mercado entreguem o que sempre prometeram e nunca cumpriram integralmente.
Contra o romantismo da comunidade
Preciso recusar aqui uma tentacao frequente. Nem toda comunidade cuida. Muitas familias pretas reproduzem no privado a violencia que combatem no publico. Muitos coletivos funcionam como tribunal permanente dos seus proprios membros. Muitas igrejas, terreiros, associacoes de bairro tem hierarquias que sufocam mais do que acolhem. Falar em cuidado coletivo sem essa ressalva e fazer propaganda, nao pensamento.
Ailton Krenak, quando trata das comunidades que o criaram, nunca idealiza. Fala dos conflitos, das rupturas, do que nao funcionou. O cuidado coletivo digno desse nome e o que reconhece essa complexidade e cria protocolos pra lidar com ela. Nao o que apaga o conflito em nome de uma harmonia imaginada. Comunidade sem atrito e comunidade de fachada.
Praticas que ja existem
Nao se trata de inventar nada. Trata-se de reconhecer e sustentar o que ja circula. As rodas de mulheres em periferias brasileiras. As sessoes de cuidado das casas de santo, que fazem acolhimento psicologico sem usar esse nome. Os grupos de pais pretos que se encontram pra falar sobre como conversar com filhos sobre racismo. Os coletivos de trabalhadores autonomos que dividem custo de terapia entre varios membros pra baratear acesso. Abdias do Nascimento, ao formular o quilombismo nos anos setenta, ja apontava que essas praticas nao sao folclore, sao tecnologia social de sobrevivencia.
O desafio contemporaneo e articular essas praticas com o saber clinico sem submeter uma coisa a outra. A psicologia precisa reaprender a ouvir o que sempre existiu fora dela. E as comunidades precisam reaprender a nomear como cuidado praticas que foram desqualificadas por decadas de modernizacao autoritaria, que chamou de atraso tudo que nao coubesse no modelo europeu de saude mental.
O que se pode fazer agora
Pra quem quer contribuir sem esperar politica publica perfeita, algumas praticas concretas tem mostrado resultado em cidades brasileiras diversas:
- Organizar rodas regulares de escuta com regras claras, frequencia fixa e mediacao rotativa, sem depender de uma unica pessoa pra sustentar o espaco.
- Dividir o custo de acompanhamento profissional entre membros do coletivo quando individualmente seria inviavel, tratando isso como infraestrutura e nao como favor entre amigos.
- Reconhecer publicamente o trabalho invisivel de cuidado que certas pessoas, quase sempre mulheres pretas, ja fazem, redistribuindo essa carga em vez de apenas agradecer.
O cuidado coletivo nao e alternativa romantica ao sistema de saude mental que temos. E um outro nivel de operacao, que o antecede e o sobrevive. Enquanto os consultorios discutem planos de saude, nos quintais de todo pais alguem ja esta segurando o bebe de outra alguem pra ela poder chorar em paz. Reconhecer isso como tecnologia social e o primeiro passo. Sustenta-lo com estrutura, tempo e recursos e o trabalho politico dos proximos anos.