Evento preto bom nao e aquele que enche a sala nem o que vai bem na foto: e aquele que, na segunda de manha, continua funcionando como rede quando alguem liga pedindo ajuda.
Na quebrada onde cresci, a festa de aniversario de uma tia virava assembleia. Entre o bolo e o pagode, rolava combinacao de carona para consulta, indicacao de advogada, emprestimo sem juros, recado para o primo que tava em crise. Ninguem chamava aquilo de comunidade terapeutica, de rede de apoio, de mutirao de cuidado. Era so domingo. Hoje, quando a gente fala em evento preto, corre o risco de virar produto: ingresso, lineup, patrocinador, foto bonita no feed. O que a gente perde quando o encontro deixa de ser funcao e vira programacao?
O encontro como infraestrutura
Beatriz Nascimento, nos anos 1980, ja dizia que o quilombo nao e lugar no mapa, e uma forma de organizar a vida. Encontro preto, quando funciona, e isso: infraestrutura afetiva e material que sustenta gente atravessando territorio hostil. O sarau da periferia, a roda de samba da tia, o culto afro, o bloco afro no carnaval, o congresso academico da ABPN, o bar da esquina onde so entra preto e preta: todos esses espacos nao existem para celebrar identidade. Existem porque, sem eles, a conta nao fecha.
Diaspora, nesse sentido, nao e metafora. E logistica. A gente se encontra porque precisa trocar informacao que o Estado nao da, validar experiencia que o consultorio individualiza, criar memoria que a escola apaga. Quando Abdias do Nascimento falava em quilombismo, em 1980, ele descrevia exatamente isso: uma pedagogia do encontro, uma politica do comum que nao espera autorizacao para existir. O evento, entao, e o minimo viavel de uma tecnologia ancestral de sobrevivencia.
A armadilha do espetaculo
So que tem um porem. Na era da economia de atencao, o encontro preto virou nicho de mercado. Festival com curadoria, marca patrocinando afrofuturismo, empresa contratando DJ preta para o happy hour da diversidade. Nada disso e, em si, problema. O problema comeca quando o evento se desloca da funcao para o espetaculo, quando a metrica do sucesso vira alcance de midia e nao continuidade de vinculo. Voce sai do rolê energizado, posta o story, e na semana seguinte nao sabe o nome de ninguem que estava ali.
Ailton Krenak tem uma frase que vale para isso: adiar o fim do mundo e, antes de tudo, nao confundir consumo com pertencimento. Quando o encontro preto vira experiencia a ser consumida, ele perde a funcao de rede. Vira entretenimento cultural identitario, coisa que se agenda no Google Calendar e se esquece depois. A diaspora nao cabe em ingresso individual. Cabe em lista de WhatsApp que continua viva na quarta-feira.
Nem saudade, nem romantismo
Tambem nao adianta idealizar o passado como se antes fosse tudo terreiro e hoje fosse tudo feira. A comunidade que eu descrevi no comeco tinha violencia, fofoca, patriarcado, homofobia, hierarquia de cor dentro da propria familia preta. Nenhum lugar de encontro esta imune a reproduzir o que esta fora dele. bell hooks, em All About Love, insiste que amor nao e sentimento, e pratica: exige verdade, responsabilidade, compromisso. Comunidade tambem. Romantizar a comunidade preta como refugio puro e uma forma de desarmar a critica interna que a mantem saudavel.
A questao nao e voltar a um encontro que nunca foi tao perfeito quanto a memoria pinta. E inventar formas de encontrar que aguentem a complexidade do agora: gente preta LGBT, gente preta evangelica, gente preta universitaria, gente preta da quebrada, gente preta da elite, gente preta imigrante africana no Brasil, gente preta brasileira na diaspora europeia. Nao existe um "nos" preto monolitico. Existe uma pratica de encontro que, quando bem feita, nao apaga diferenca, convive com ela.
Como medir um encontro que cura
Se a gente quer pensar serio em evento preto como politica do comum, e preciso trocar de metrica. Nao e quantos vieram. E o que ficou depois. adrienne maree brown, em Emergent Strategy, fala em mudanca fractal: o que acontece em pequena escala, bem feito, replica. Um encontro que gera tres conversas honestas, duas parcerias de trabalho e uma amizade que vai durar dez anos faz mais pela saude mental coletiva do que um festival de mil pessoas que some no dia seguinte.
- Prefira formatos que permitam escuta, nao so consumo: roda, grupo pequeno, refeicao coletiva, oficina.
- Cuide do pos-evento como cuida do pre: grupo continuado, reencontro marcado, check-in um mes depois.
- Nao terceirize o cuidado para o palco: distribua funcoes de acolhimento entre quem organiza, para que ninguem saia invisivel.
O evento preto que importa e o que, quando acaba, deixa alguem com um numero no celular que vai atender na hora dificil. O resto e marketing. A diaspora nao pede palco, pede mesa. E na mesa, de preferencia, com comida, com tempo, com nome proprio sendo pronunciado direito.