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Semana 18 · 2025

Redes de apoio que curam

REPORTAGEM 2 de maio de 2025 · Comunidade
Capa: Redes de apoio que curam

Rede de apoio preta nao e hashtag de autocuidado: e o telefonema as tres da manha, o pix emergencial, a carona para a emergencia psiquiatrica que o SUS demorou a oferecer.

Uma amiga me contou, semana passada, que sobreviveu ao episodio depressivo mais feio da vida dela sem ter visto um psiquiatra por oito meses. O que segurou foi uma rede de cinco mulheres pretas que revezavam mensagens, almocos, emprestimos e, quando precisou, uma ficou tres noites dormindo no sofa dela. Essa rede nao apareceu num aplicativo de bem-estar. Foi construida em quinze anos de roda de conversa, de aniversario, de briga e reconciliacao. A pergunta que fica e incomoda: por que a gente continua tratando cuidado coletivo como plano B do cuidado profissional, quando a evidencia historica mostra o contrario?

O que Lelia ja tinha avisado

Lelia Gonzalez, nos anos 1980, cunhou a ideia de amefricanidade para mostrar que a cultura politica das Americas pretas e, estruturalmente, uma cultura de rede. Nao por escolha espiritual, por imposicao historica: um povo que nao podia confiar na policia, no juiz, no hospital, no patrao, construiu suas proprias formas de pertencer. Irmandades negras no Brasil colonial, sociedades beneficentes no pos-abolicao, terreiros como sistemas de saude mental antes da psicologia existir como profissao. Rede de apoio preta nao e invencao contemporanea do bem-estar. E continuidade de uma tecnologia de sobrevivencia de seculos.

Ruth Wilson Gilmore, pensando o abolicionismo carcerario nos Estados Unidos, diz que abolir e, antes de tudo, construir. Construir o que? As instituicoes de cuidado que tornam a punicao desnecessaria. Aplicado ao campo psi, a traducao e direta: nao adianta so criticar o racismo do consultorio branco se a gente nao investe no que ja funciona fora dele. Rede de apoio preta e infraestrutura abolicionista, no sentido de que ela faz, cotidianamente, o trabalho que o Estado nao faz e a clinica privada nao alcanca.

O perigo de romantizar a mae preta coletiva

Mas aqui entra a tensao. Tem um discurso circulando, as vezes em nome da ancestralidade, que transforma a rede de apoio preta numa especie de SUS afetivo gratuito e ilimitado. "A comunidade cura", "nossas mulheres sempre se viraram", "terreiro e o verdadeiro consultorio". Tudo isso tem verdade. E tudo isso, levado sem critica, vira exploracao. A mae preta que sustenta a familia inteira, a amiga que e terapeuta nao-paga de cinco mulheres, a lideranca comunitaria que nunca dorme: essas figuras nao sao simbolos a celebrar, sao corpos a proteger.

bell hooks escreveu, em Sisters of the Yam, que a sororidade preta so se sustenta quando e reciproca, e nao quando e extracao disfarcada de solidariedade. Rede de apoio que nao cuida de quem cuida vira mais um turno de trabalho nao remunerado. E, nesse ponto, ela deixa de curar e comeca a adoecer. A romantizacao do coletivo preto como infinitamente resiliente e, na pratica, uma forma de nao pagar a conta do cuidado.

Entre o terreiro e o consultorio

A nuance que falta no debate e simples: rede de apoio comunitaria e clinica profissional nao sao adversarias. Sao camadas complementares de uma mesma ecologia do cuidado. Quem defende so o comunitario em nome da ancestralidade esta, sem querer, fazendo o jogo do Estado que nao quer pagar psicologo preto no SUS. Quem defende so o profissional em nome da cientificidade esta apagando seculos de saberes pretos sobre sofrimento, vinculo e cura.

Frantz Fanon, que era psiquiatra antes de ser referencia anticolonial, entendia isso melhor do que muito teorico contemporaneo. A clinica, para ele, so fazia sentido quando reconhecia que o adoecimento psiquico do colonizado era, tambem, um sintoma politico coletivo. Traduzindo para ca: terapia individual sem rede desaterra, rede sem terapia as vezes sobrecarrega. O corre e manter as duas de pe, com limite claro do que cada uma faz.

O que uma rede que cura de verdade pratica

Se a gente quer construir rede de apoio que nao seja discurso bonito nem exploracao velada, tem coisa concreta para fazer. Nao e formula, e disposicao.

A rede que me sustenta hoje nao se chama comunidade. Se chama pelo nome de cada pessoa que atende quando eu ligo. E, quando uma delas me liga, eu atendo. E isso, feito com constancia por decadas, e uma forma de cura que nenhuma sessao de cinquenta minutos consegue replicar sozinha. Nem quer. A cura, quando e seria, vem em camadas. E a camada preta, no Brasil, sempre foi a primeira a chegar e, por enquanto, a ultima a ser reconhecida como tal.

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