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Semana 17 · 2025

Solidariedade interseccional

REPORTAGEM 25 de abril de 2025 · Comunidade
Capa: Solidariedade interseccional

Solidariedade interseccional nao e somar minorias num comunicado conjunto: e aceitar que, dentro da propria negritude, existem contas que ainda nao foram pagas.

Numa reuniao de movimento preto em que estive ha alguns anos, uma mulher trans negra pediu a palavra e perguntou, direto: "Quando voces dizem comunidade, eu estou ai dentro ou so como simbolo quando da foto?" O silencio que se fez na sala dizia mais do que qualquer documento programatico. Interseccionalidade, no Brasil, costuma ser tratada como palavra de ordem para usar em lives de maio e novembro. Mas o teste real dela nao e discursivo. E saber quem, dentro da propria gente preta, continua pagando um preco maior para pertencer.

Crenshaw no Brasil nao e importacao

Kimberle Crenshaw cunhou o termo interseccionalidade, em 1989, para descrever um problema juridico: mulheres negras nao conseguiam processar empregadores por discriminacao porque a lei americana so reconhecia racismo OU sexismo, nunca os dois operando juntos. O conceito viajou, mas no Brasil ele encontrou terreno que ja tinha sido arado por Lelia Gonzalez, por Sueli Carneiro, por Beatriz Nascimento. A ideia de que ser mulher preta no Brasil e uma posicao especifica, nao uma soma de duas identidades, nao nasceu em Columbia. Nasceu no Catete, na Baixada, no Pelourinho.

A novidade, portanto, nao e o conceito. E o que a gente faz com ele quando a conta chega em casa. Porque uma coisa e citar Crenshaw em coluna de jornal. Outra e aceitar que o movimento preto, no Brasil, teve e tem ainda problemas sérios de machismo, transfobia, lgbtfobia, capacitismo e colorismo dentro das proprias fileiras. Solidariedade interseccional seria que esperar deve ser praticado lateralmente, entre iguais que nao sao tao iguais assim.

O cansaco da mulher preta que segura a pauta sozinha

Angela Davis, em Mulheres, Raca e Classe, mostrou como, historicamente, a mulher preta foi convocada a ser coluna dos dois movimentos, feminista e antirracista, sem que nenhum dos dois a protegesse de verdade. Cinquenta anos depois, a estrutura mudou menos do que a gente gostaria. No movimento negro, cobram que ela priorize raca sobre genero. No feminismo branco majoritario, cobram que ela priorize genero sobre raca. E ela, no meio, sustentando duas frentes com uma vida so.

Se a solidariedade interseccional nao comeca por ai, ela nao comeca em lugar nenhum. Nao da para pedir que uma mulher preta trans carregue a denuncia da transfobia dentro do movimento negro enquanto homens pretos cis continuam liderando sem ouvir. Nao da para pedir que uma mulher preta lesbica seja educadora afetiva de um grupo que a invisibiliza. A conta tem que ser redistribuida, e redistribuicao incomoda quem tinha privilegio relativo dentro da propria margem.

Interseccionalidade nao e concurso de opressao

Agora, tem um uso perverso da interseccionalidade que tambem precisa ser nomeado. E quando ela vira campeonato de quem sofre mais, tabela de pontos para ver quem tem mais direito a falar. Isso nao e politica, e narcisismo das pequenas diferencas, como diria Freud com razao. A interseccionalidade seria nao e sobre hierarquizar dor. E sobre mapear como sistemas de poder se sobrepoem para produzir vulnerabilidades especificas, e como estrategias de luta precisam levar isso em conta.

Paulo Freire dizia que ninguem se liberta sozinho, e ninguem liberta ninguem: a gente se liberta em comunhao. Comunhao, aqui, nao e fusao. E coordenacao. Homens pretos cis podem e devem se organizar contra o racismo sem precisar que mulheres pretas trans facam a pedagogia de genero para eles. A informacao esta disponivel. O trabalho de aprender e responsabilidade individual antes de virar responsabilidade coletiva.

O que uma pratica interseccional de verdade exige

Saindo da abstracao, solidariedade interseccional se mede em decisoes pequenas que ninguem vai filmar. Quem convida quem para a mesa. Quem fala primeiro na reuniao. Quem tem o trabalho de cuidado emocional do grupo nao-reconhecido. Quem e citada no texto academico e quem e so nota de rodape. E ai que se ve se a pratica acompanha o discurso.

A gente preta nao precisa de mais unidade performatica. Precisa de uma pratica de convivencia em que as diferencas internas nao sejam varridas para baixo do tapete em nome de uma frente unica que, no fim, so beneficia quem ja estava na frente. Interseccionalidade, entendida como politica do comum, e isso: a disposicao cotidiana de pagar, entre iguais, as contas que nunca se quer ver cobradas. E seguir em roda mesmo depois que a foto foi tirada.

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