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Semana 51 · 2025

Interseccionalidade: múltiplas opressões

ANÁLISE 19 de dezembro de 2025 · Antirracismo
Capa: Interseccionalidade: múltiplas opressões

Interseccionalidade virou palavra da moda, repetida em painel corporativo e legenda de Instagram, mas quase ninguém quer lidar com o que ela exige de quem tem algum poder.

Quando Kimberlé Crenshaw cunhou o termo, em 1989, ela não estava propondo um adjetivo para diversificar folder de RH. Estava descrevendo um problema jurídico: mulheres negras processando a General Motors por discriminação perdiam porque o tribunal considerava separadamente a categoria "mulher" (onde brancas eram a referência) e a categoria "negro" (onde homens eram a referência). Entre as duas, elas desapareciam. No Brasil, essa geometria tem sobrenome antigo — Lélia Gonzalez já mostrava nos anos 1980 que a mulher negra brasileira opera no cruzamento onde raça, gênero e classe se tornam, juntos, uma máquina de apagamento.

A categoria que recusa recortes

Pensar interseccionalmente é recusar o gesto mais confortável da militância branca e da esquerda masculina: escolher um eixo de opressão e pedir que os outros esperem a vez. Feministas que tratavam a raça como "nuance", marxistas que tratavam gênero como "superestrutura", antirracistas que tratavam a classe como "desvio de foco" — todos operaram com a mesma aritmética empobrecedora. Sueli Carneiro chama isso de dispositivo de racialidade: uma forma de organizar o debate público que empurra a mulher negra para fora da sala sempre que a pauta fica específica.

A interseccionalidade, na chave brasileira, não é soma de opressões. É multiplicação. Uma trabalhadora doméstica preta, lésbica e periférica não enfrenta quatro problemas paralelos; enfrenta uma única engrenagem que a tritura em quatro frequências ao mesmo tempo. Qualquer política pública que ignore isso vai produzir dado bonito sem mudar nada.

O esvaziamento liberal

O problema apareceu quando a palavra saiu do campo jurídico-acadêmico e virou credencial de ESG. Empresa que demite mãe solo aos 48 publica relatório de interseccionalidade. Universidade que não aprovou uma tese de mulher preta em vinte anos faz seminário sobre o tema. A categoria crítica virou selo decorativo — e, nesse trajeto, perdeu a parte incômoda: a que exige redistribuição de recursos, de vagas, de poder real.

Há também a versão identitária que trava qualquer avanço: o jogo de quem é mais oprimido, como se sofrimento fosse moeda de disputa. Crenshaw nunca propôs isso. A ferramenta servia para desenhar políticas mais precisas, não para hierarquizar dores. Quando vira competição, o que se ganha em linguagem se perde em aliança — e quem sempre soube aproveitar rachaduras na base é exatamente quem concentra o poder no topo.

Coalizão sem fusão

Bell hooks insistia num ponto que a esquerda brasileira tem dificuldade de ouvir: coalizão não é diluição. Mulheres pretas articuladas em movimento próprio não estão se isolando — estão construindo a única base a partir da qual a aliança com outras pautas faz sentido. Quando o movimento de mulheres brancas pede "união" sem abrir mão da centralidade da pauta racial branca, o que pede é, de novo, adiamento.

A interseccionalidade útil é a que reorganiza prioridades. Se a mulher negra periférica é quem mais sofre com a ausência de creche, com o transporte precário, com a violência obstétrica e com o desemprego, ela deveria ser o centro do desenho da política — e não a última linha da tabela. O resto do país, inclusive, se beneficia de políticas pensadas a partir de quem está pior: é um princípio de engenharia social que os Estados Unidos aprenderam tarde e o Brasil ainda resiste.

O que fazer com isso

Não é preciso mais seminário sobre o conceito. É preciso aplicá-lo onde dói. Algumas pistas concretas:

A palavra foi levada a passeio, virou adorno. Quem quiser devolvê-la ao trabalho vai ter que encarar o lado chato — o que redistribui, o que desaloja, o que incomoda quem achava que bastava mudar o vocabulário para manter a arquitetura intacta.

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