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Semana 48 · 2025

Apropriação cultural vs. apreciação

ANÁLISE 28 de novembro de 2025 · Antirracismo
Capa: Apropriação cultural vs. apreciação

A diferença entre apropriação e apreciação não é questão de boa intenção — é questão de quem lucra, quem é perseguido, e quem vira fantasia de carnaval da estética que era, na véspera, motivo de castigo.

Em 1890, a polícia prendia gente preta na Bahia por tocar tambor. Em 2024, uma marca italiana de luxo lança a coleção "percussion spirit" inspirada em "ritmos ancestrais" e vende bolsa por vinte mil reais. Entre um momento e outro, os mesmos tambores viraram patrimônio imaterial, trilha de novela, tema de desfile em Milão — e quase nada do dinheiro voltou para os terreiros que sustentaram a memória quando ela era crime. É nessa assimetria histórica que o debate sobre apropriação cultural precisa ser feito, e não no microfone de quem acha que é só uma questão de "usar turbante ou não".

O conceito mal usado

O termo "apropriação cultural" virou saco de pancada de dois lados. De um, gente que trata qualquer circulação estética entre grupos como crime moral, como se cultura fosse propriedade fechada. De outro, gente que trata qualquer crítica como exagero identitário e invoca a "miscigenação brasileira" como salvo-conduto para tudo. Os dois erram, e erram juntos, porque ignoram o núcleo do problema: a apropriação é um fenômeno de economia política, não de gosto.

Não se trata de saber se uma mulher branca pode usar trança. Trata-se de saber por que a mulher preta que usava trança foi impedida de entrar em certos empregos por décadas, e agora a marca branca vende o mesmo penteado como "boho chic" sem citar, sem pagar, sem abrir espaço. O elemento atravessa a fronteira; a punição e o lucro ficam em lados opostos.

A cordialidade como álibi

O Brasil tem uma versão particular desse problema porque tem uma ideologia particular — a da democracia racial, que Abdias do Nascimento passou a vida denunciando. Aqui, apropriar-se é rebatizado como "misturar", como "brasilidade", como prova de que não existiria racismo. O samba, criado em quintal de mulher preta pobre, vira patrimônio nacional genérico enquanto os compositores pretos originais morrem sem royalties. O axé sobe a escada social, muda de cor na capa do disco, e o terreiro continua sendo atacado a pedrada. A cordialidade cultural é o verniz que permite que o saque continue em alta resolução.

Florestan Fernandes já via isso nos anos 1960: o mito da integração cultural serviu, no Brasil, para absorver as contribuições pretas sem redistribuir o acesso à produção, à propriedade intelectual, ao capital que a cultura gera. É um modelo sofisticado — mais eficiente, em certa medida, do que a segregação explícita, porque suga e sorri ao mesmo tempo.

O que seria apreciação, então

Apreciação exige três coisas que apropriação evita: contexto, consentimento e contrapartida. Saber de onde vem, reconhecer quem fez, devolver algo — seja crédito, dinheiro, espaço, ou simplesmente cala a boca quando o assunto é debatido por quem vive aquilo. Um DJ não-preto que toca funk nos sets internacionais e cita, paga, produz em parceria com MCs da quebrada, aprecia. O mesmo DJ que assina os remixes sozinho, recebe o cachê integral e não leva nenhum MC para o festival, se apropria.

A linha não é difícil de enxergar, mas é desconfortável. Porque exige que quem tem o capital cultural branco abra mão de parte da centralidade, e ninguém abre mão de centralidade espontaneamente. O debate fica então travado num estágio infantil — "posso ou não posso usar?" — quando a pergunta adulta seria: "o que está sendo feito, em cada uso, com o poder que circula junto?".

O que fazer com isso

Consumidor, artista, marca, festival — todo mundo tem margem de ação. Algumas balizas:

A cultura preta brasileira seguiu viva apesar de três séculos de tentativa de silenciamento. Não precisa de permissão de ninguém para circular, e não vai. A pergunta, agora, é se quem circula em cima dela vai continuar fingindo que é tudo herança comum, ou vai finalmente fazer a conta de quem pagou, ao longo do tempo, a conta do terreiro.

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