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Semana 46 · 2025

Construindo alianças antirracistas autênticas

ANÁLISE 14 de novembro de 2025 · Antirracismo
Capa: Construindo alianças antirracistas autênticas

Aliado de verdade não pede certificado. Aparece no velório, banca o advogado, perde amizade branca no grupo da faculdade — e não posta sobre nenhuma dessas coisas.

Um amigo branco me ligou outro dia, angustiado, perguntando se tinha feito certo ao interromper uma piada racista no churrasco da família. A pergunta dele já denunciava o problema: ele queria nota, queria confirmação de que era dos bons. Respondi que sim, ele fez certo — mas que a cobrança de elogio era exatamente o tipo de coisa que torna aliança branca tão cansativa para quem é preto.

O mercado da boa consciência

Virou moda, nos últimos anos, o branco de classe média declarar-se aliado antirracista como quem declara dieta. Faz curso, lê Djamila, compartilha bell hooks no grupo do trabalho. Nada disso é ruim em si. O problema começa quando a aliança vira identidade — quando a pessoa branca precisa ser reconhecida como aliada para existir, e essa necessidade acaba pesando mais do que a causa.

Angela Davis escreveu que solidariedade não é caridade; é reconhecimento de que a libertação é mútua ou não é. Quando o branco se aproxima da pauta buscando absolvição, ele não está em aliança — está em terapia, e de graça, usando corpo preto como divã. Sueli Carneiro chama isso, com precisão, de epistemicídio emocional: a pessoa preta some enquanto seu sofrimento vira matéria-prima para a cura alheia. O aliado que chora mais do que a vítima, que precisa ser consolado pelo constrangimento de ter presenciado racismo, inverte a rota do cuidado e, sem perceber, cobra da gente preta o trabalho de aplacar culpa branca.

Aliança não é plateia

A confusão mais comum é achar que aliar-se significa amplificar. Sim, amplificar voz preta importa — mas só quando a voz preta pediu. O aliado que repost a esmo, que marca a amiga preta em todo debate racial como se fosse obrigação dela explicar, que convoca o colega negro para falar de cota numa reunião sobre logística: esse não está ajudando. Está terceirizando.

O trabalho de aliado autêntico é, na maior parte do tempo, silencioso e constrangedor. É chamar atenção do primo no almoço de domingo, sabendo que vai sobrar. É questionar por que o departamento só tem um preto. É abrir mão de oportunidade quando ela vem manchada — inclusive oportunidades onde a presença preta serve de verniz. Florestan Fernandes já mostrava, em 1965, como a cordialidade brasileira opera exatamente assim: fingindo inclusão para preservar hierarquia.

Confiança se constrói na rotina, não no discurso

Nenhuma aliança séria se forma em workshop de dois dias. Ela se constrói ao longo de anos, com gente que aparece quando ninguém está olhando. O aliado que banca o aluguel da amiga preta desempregada sem postar sobre isso. O colega que cede crédito num artigo científico. A vizinha branca que, quando a polícia aborda o vizinho preto na portaria, desce de chinelo e fica filmando até os caras irem embora.

Kabengele Munanga insiste há décadas que o Brasil precisa passar da retórica da mestiçagem para a prática da reparação. Reparação não é simbólica — é material. E é na materialidade que o aliado se testa: divide herança, cede espaço, perde privilégio concreto. Se a aliança não custa nada, provavelmente não é aliança. É filantropia emocional com roupa de política. O sinal mais honesto de que uma aliança amadureceu é quando a pessoa branca para de esperar gratidão e começa a agir porque é o certo — mesmo quando ninguém preto está na sala para testemunhar, mesmo quando o gesto nunca vai ser narrado no jantar da próxima semana.

O que pedir, o que recusar

Gente preta também tem responsabilidade nessa conversa: parar de agradecer migalha, parar de bajular branco que faz o mínimo, parar de usar aliado como prova de valor social. Alguns critérios práticos para separar joio de trigo:

A aliança antirracista que interessa é a que sobrevive ao tédio, à briga de família, à perda de prestígio. Não é amizade bonita pra foto. É pacto de longo prazo entre gente que sabe que, no fim, ninguém se salva sozinho — e que salvar-se junto exige abrir mão de muito mais do que um post no domingo.

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